O vinho alemão ainda ocupa um espaço pequeno nas prateleiras brasileiras. Mas os sinais vistos na última semana em São Paulo indicam que isso pode começar a mudar. Pela primeira vez, o Ministério Federal da Agricultura da Alemanha montou um pavilhão na ProWine São Paulo, principal feira profissional de vinhos e destilados das Américas. Somado à participação da associação que reúne vinícolas, o país levou ao evento 20 produtores, com rótulos que foram além do Riesling e incluíram Pinot Noir, Chardonnay, Silvaner e espumantes.
Não é apenas uma questão de aumentar a presença em uma feira. A ProWine funciona como um ponto de encontro entre quem produz e quem decide o que chegará ao consumidor. Importadores negociam portfólios, distribuidores procuram novos produtos e compradores de supermercados, restaurantes e lojas escolhem parte do que estará à venda nos meses seguintes.
Malu Sevieri, diretora da ProWine São Paulo, costuma resumir essa relação de forma direta: “O que a gente vê na ProWine em São Paulo, depois de três meses você vê na gôndola do supermercado.” Se essa lógica se repetir, o consumidor brasileiro deverá começar a encontrar uma variedade maior de vinhos alemães — principalmente brancos — nos próximos meses.
O acordo mudou o interesse europeu
A movimentação acontece ao mesmo tempo em que o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia abre uma nova perspectiva para quem vende vinho europeu ao Brasil.
O acordo prevê redução gradual das tarifas de importação, hoje capazes de chegar a 27%, alterando progressivamente a relação de preço entre rótulos europeus e seus concorrentes no mercado brasileiro. A expectativa é de eliminação das tarifas ao longo dos próximos anos.
Ainda não significa que uma garrafa alemã ficará imediatamente muito mais barata. A mudança é gradual. Mas, para produtores e importadores que precisam planejar com antecedência, a perspectiva já altera os cálculos.
A própria ProWine captou essa mudança. Segundo Malu, a participação europeia na edição deste ano cresceu 38%. Somente Espanha, França e Itália triplicaram sua presença.
O interesse europeu é no mercado bilionário. Em 2025, o setor movimentou cerca de R$ 21,1 bilhões no Brasil. O segmento super premium, com garrafas que passam de R$ 1.000, avançou aproximadamente 15% em faturamento e os espumantes atingiram 4,5 milhões de caixas de nove litros comercializadas, crescimento de 8%.
Outro marco foi alcançado recentemente: o consumo brasileiro ultrapassou pela primeira vez os 3 litros por habitante por ano. Apesar de ainda estar distante de outros países, como os 30 litros da Argentina, é um dos poucos países no mundo em que há crescimento.
Alemanha ainda é pequena por aqui
Para os produtores alemães, o espaço para crescer é grande justamente porque a presença atual ainda é limitada. O Brasil ocupa apenas a 38ª posição entre os destinos dos vinhos alemães. O tamanho da população brasileira e a possibilidade de redução das barreiras comerciais, porém, passaram a colocar o país com mais destaque no radar das vinícolas.
O Instituto Alemão do Vinho vê a mudança também como uma forma de diversificar mercados em um período de tensões comerciais internacionais. A presença oficial na ProWine foi consequência dessa estratégia.
“A ProWine São Paulo é um componente fundamental da estratégia de exportação dos produtores de vinho alemães”, afirmou Michael Schemmel, gerente de marketing do Deutsches Weininstitut. Para ele, os encontros presenciais com potenciais importadores são determinantes quando a discussão deixa a degustação e chega efetivamente aos negócios.
E a feira ganhou tamanho para desempenhar esse papel. A edição de 2026 terminou com mais de 25 mil visitantes, mais de 2 mil produtores e representantes de 43 países.
O branco encontrou o Brasil
Há ainda uma coincidência favorável aos alemães: o brasileiro está aumentando o interesse por vinho branco. Segundo Malu, essa é atualmente a categoria com maior crescimento percentual no país. O rosé está estabilizado e o tinto apresentou pequena queda de 1,4%.
O perfil de parte da produção alemã também se encaixa em características que o setor associa ao consumidor brasileiro. Vinhos brancos alemães tendem a apresentar perfil mais fresco e frutado e, em muitos casos, menor teor alcoólico — características que podem funcionar bem em um país de clima quente e com uma gastronomia que abre espaço para esse tipo de vinho.
O que a feira diz sobre a próxima prateleira
É justamente por ser uma feira profissional que a ProWine funciona como uma espécie de prévia da prateleira. O consumidor final não participa para escolher uma garrafa. Quem circula ali são importadores, distribuidores, sommeliers, compradores e profissionais de restaurantes e varejo.
E negócios efetivamente acontecem dentro do evento. Malu relata o caso de um produtor argentino que passou cerca de um ano conversando à distância com um potencial importador e finalmente assinou o contrato durante a feira.
Outro produtor brasileiro contou a ela que começou a produzir rosé depois de ouvir repetidamente, na edição anterior, pedidos por esse tipo de vinho. “Quando a gente vê que a feira é ferramenta de mudança, tanto para gerar negócios quanto de comportamento, para mim nosso dever está cumprido”, afirma.
É uma dinâmica especialmente importante para países que ainda precisam construir distribuição no Brasil. Uma vinícola alemã pode produzir um bom Riesling. Mas, sem importador, rede de distribuição e comprador interessado, ele dificilmente chegará à gôndola. A ProWine encurta justamente essa distância.
Europa aumenta a pressão
Os alemães não estão sozinhos nesse movimento. A Espanha teve quatro iniciativas coletivas na feira. Só a denominação de origem Rueda reuniu 31 vinícolas e 74 rótulos, depois de registrar crescimento de quase 198% nas exportações ao Brasil em 2025.
Portugal, França e Itália também ampliaram presença. Hoje, segundo os dados apresentados pela Ideal BI Consulting, a América do Sul responde por 59% do mercado analisado, contra 40% da Europa. A redução gradual dos impostos pode aumentar a competição entre essas duas origens.
Para os vinhos portugueses, por exemplo, o Brasil já representa um mercado estratégico, com participação próxima de 16%. A leitura da ViniPortugal é que tarifas menores podem permitir a entrada de produtos em faixas de preço mais competitivas e ampliar o universo de consumidores.
Argentina e outros produtores sul-americanos acompanham essa movimentação com mais cautela, principalmente diante da possibilidade de rótulos europeus ganharem competitividade em faixas de entrada e em categorias de maior valor. Atualmente, os vizinhos são isentos de taxas de importação.
O resultado provavelmente não será uma substituição imediata de vinhos argentinos, chilenos ou brasileiros por alemães. O movimento é de aumento de oferta.