Antes de uma garrafa de vinho aparecer na prateleira do supermercado, alguém precisa decidir que ela merece estar ali. Entre os dias 6 e 8 de outubro, boa parte dessas escolhas será feita em São Paulo. É esse o papel da ProWine São Paulo, que chega à sétima edição ocupando, pela primeira vez, dois pavilhões do Expo Center Norte.
Mais de 2 mil produtores de 43 países estarão reunidos diante de importadores, distribuidores, sommeliers e, principalmente, compradores de redes varejistas, bares, hotéis e restaurantes. Não é uma feira para o consumidor abrir uma garrafa e escolher a favorita. É uma feira profissional onde parte do mercado decide o que comprará, importará e venderá depois.
Malu Sevieri, diretora da ProWine São Paulo, resume a consequência de forma simples: “O que a gente vê na ProWine em São Paulo, depois de três meses você vê na gôndola do supermercado.”
A frase ajuda a explicar por que um evento de três dias pode ter impacto muito além de seus corredores. Em 2025, a ProWine recebeu mais de 20 mil visitantes. 87% deles eram tomadores de decisão. Durante a própria feira, foram movimentados aproximadamente R$ 250 milhões em negócios, com projeção de alcançar R$ 500 milhões nos três meses seguintes.
Um mercado de R$ 21,1 bilhões
A expansão da feira acompanha o crescimento do vinho no país. Em 2025, o setor movimentou cerca de R$ 21,1 bilhões no Brasil. O segmento super premium, com garrafas que passam de R$ 1.000, avançou aproximadamente 15% em faturamento e os espumantes atingiram 4,5 milhões de caixas de nove litros comercializadas, crescimento de 8%.
Segundo Malu, outro marco foi alcançado recentemente: o consumo brasileiro ultrapassou pela primeira vez os 3 litros por habitante por ano. Apesar de ainda estar distante de outros países, como os 30 litros da Argentina, ela vê uma combinação de fatores por trás da expansão.
“Tem uma parte do consumidor se educando mais, novos consumidores e uma indústria nacional se fortalecendo também”, afirma. Para a executiva, o crescimento da própria feira funciona como termômetro: “A feira é um espelho de um setor. A gente não faz feira se o setor não estiver andando, se o setor não estiver crescendo.”
O tamanho físico ajuda a ilustrar isso. Até o ano passado, a ProWine ocupava um pavilhão. Em 2026, passa a usar dois. E não é apenas uma expansão do mercado doméstico.
Segundo Malu, a procura de produtores internacionais aumentou a ponto de novas regiões e países entrarem em contato continuamente com a organização para tentar chegar ao mercado brasileiro.
O Brasil virou vitrine para quem quer entrar
Ao contrário de países produtores onde boa parte do consumo permanece concentrada no vinho nacional, o Brasil recebe rótulos de diferentes origens. “O argentino bebe vinho argentino. O Brasil bebe vinho do mundo inteiro”, diz Malu. “Está aberto a aprender e a conhecer novas origens.”
Na edição de 2026, estarão presentes mercados tradicionais como Portugal, Espanha, Itália, França, Chile e Argentina, mas também produtores de origens menos comuns nas prateleiras brasileiras.
A feira terá ainda novas regiões participantes, duas representações alemãs e produtores de Champagne que ainda não contam com distribuição no Brasil.
Para Malu, o interesse europeu aumentou. Ela cita uma presença maior de produtores franceses chegando diretamente ao evento em busca de importadores, uma participação mais agressiva da Espanha e um novo crescimento do número de portugueses.
“Você vê que os países da União Europeia têm mais interesse pelo Brasil”, afirma. O movimento é puxado pelo acordo com o Mercosul que vai zerar a taxa de importação entre os dois blocos até 2034.
O próximo movimento pode ser vinho branco
Se a feira ajuda a antecipar o que chegará ao consumidor, um dos sinais mais claros deste ano está na cor do vinho. Segundo Malu, os brancos são atualmente a categoria de maior crescimento percentual, enquanto o rosé se mantém estável e o tinto apresentou uma pequena retração de 1,4%.
Ela associa parte dessa procura ao clima e à alimentação brasileira. “O Brasil tem essa culinária e esse clima para a gente consumir mais vinho branco”, afirma. Há também, segundo ela, uma percepção de que esse tipo de vinho é mais leve e adequado para ocasiões como o almoço.
O que pode chegar ao supermercado
Malu acredita que essa movimentação deve resultar em uma variedade maior de vinhos brancos disponíveis ao consumidor, tanto em quantidade de produtores quanto de países.
Ela lembra que algo semelhante já aconteceu com os rosés. Anos atrás, produtores que ainda nem possuíam importador no país participaram da feira; posteriormente, seus produtos começaram a aparecer no varejo. Agora, além dos brancos, outra categoria deve ganhar espaço: vinhos de baixo teor alcoólico ou sem álcool.
“Até o ano passado, se você quisesse achar um vinho zero álcool, tinha que ir a lojas muito especializadas e encontrava duas ou três opções. Hoje já consegue encontrar normalmente no supermercado”, afirma. Para ela, esse movimento ainda tem espaço para avançar.
É justamente aí que a natureza B2B da ProWine se torna importante. Os visitantes não vão apenas provar lançamentos. Um comprador pode descobrir um produtor que ainda não vende no país, uma importadora pode fechar uma nova representação e uma rede pode decidir aumentar uma determinada categoria. Meses depois, essas decisões chegam ao consumidor sem que ele necessariamente saiba onde começaram.