A região francesa de Champagne, a cerca de 150 quilômetros de Paris, reúne 16.460 viticultores, 120 cooperativas e 410 casas produtoras em uma cadeia que comercializou 266,1 milhões de garrafas em 2025, segundo o Comité Champagne, entidade que representa o setor. Desse volume, 152 milhões foram destinados ao mercado internacional e 114 milhões permaneceram na França. Nesta sexta-feira, 23 de outubro, Dia Mundial do Champagne, os números dimensionam uma atividade agrícola construída ao longo de séculos, na qual o território de origem, as variedades de uva e as regras de elaboração determinam o direito de utilizar a denominação.
“O mercado francês é uma vitrine para nossa denominação, e precisamos fortalecê-lo”, afirma Maxime Toubart, presidente do Sindicato Geral dos Viticultores e copresidente do Comité Champagne, em um comunicado de janeiro deste ano. A declaração acompanhou o balanço de 2025, quando as vendas registraram retração de 2% em relação ao ano anterior, em um cenário marcado por inflação, mudanças nos hábitos de consumo e incertezas no comércio internacional. As exportações representam 57% das garrafas comercializadas pela região.
O Champagne é um vinho espumante produzido exclusivamente na área delimitada pela Appellation d’Origine Contrôlée (AOC), reconhecimento oficial concedido em 1936. A denominação estabelece quais vinhedos podem fornecer as uvas, as variedades autorizadas, as práticas agrícolas e as etapas de elaboração. Por isso, um espumante brasileiro, italiano ou espanhol pode empregar o mesmo método de fermentação utilizado pelos franceses, mas não pode ser comercializado como Champagne nos mercados em que a denominação está protegida.
Como nasceu o Champagne
A viticultura chegou ao nordeste da França durante a ocupação romana, mas ganhou importância econômica na Idade Média, quando comunidades religiosas passaram a cultivar vinhedos e produzir vinhos para consumo e comércio. A proximidade de Reims, cidade onde os reis franceses eram tradicionalmente coroados, contribuiu para ampliar a circulação da bebida entre a nobreza e as cortes europeias.

Durante séculos, os vinhos produzidos em Champagne eram tranquilos, sem a efervescência que posteriormente identificaria a região. O clima frio interrompia a fermentação no inverno e, com a elevação das temperaturas na primavera, as leveduras voltavam a consumir os açúcares, liberando gás carbônico. A adoção de garrafas mais resistentes, no século 17, permitiu reter esse gás e desenvolver a produção de vinhos espumantes.
Foi nesse período que o monge beneditino Dom Pierre Pérignon, responsável pelos vinhos da Abadia de Hautvillers, aperfeiçoou técnicas de seleção de uvas, prensagem e combinação de vinhos. Embora seu nome esteja associado à invenção do Champagne, os registros históricos não sustentam que ele tenha criado a bebida espumante. Sua evolução resultou de inovações sucessivas, entre elas o desenvolvimento de garrafas e rolhas, o controle da fermentação e a retirada dos sedimentos.
No século 19, os estudos de Louis Pasteur sobre microrganismos contribuíram para compreender a transformação dos açúcares em álcool e gás carbônico. O domínio desses processos acompanhou a expansão comercial de casas produtoras como Moët & Chandon, fundada em 1743, Veuve Clicquot, de 1772, e Krug, criada em 1843, que passaram a distribuir seus vinhos para diferentes mercados.
Uma produção concentrada em 34,2 mil hectares
Os vinhedos de Champagne ocupam 34.200 hectares distribuídos por 319 municípios de cinco departamentos franceses, principalmente Marne e Aube. Essa superfície corresponde a 0,5% dos vinhedos mundiais, mas a denominação responde por 31% do valor do consumo global de vinhos espumantes, segundo o Comité Champagne. A participação econômica está relacionada à proteção da origem, às exigências de produção e à estrutura comercial das casas produtoras.

Três variedades de uva concentram praticamente todo o cultivo. A Pinot Noir ocupa 38% da superfície, a Chardonnay responde por 32% e a Meunier, por 30%. A primeira contribui com estrutura, a segunda está associada à acidez e ao potencial de envelhecimento, enquanto a terceira participa de combinações que valorizam características frutadas. A distribuição acompanha diferenças de solo e relevo: a Chardonnay predomina na Côte des Blancs, a Pinot Noir ocupa parcelas da Montagne de Reims e da Côte des Bar, enquanto a Meunier aparece com maior frequência no Vale do Marne.
O subsolo regional, formado em parte por calcário e giz, apresenta capacidade de armazenar água e favorecer sua disponibilidade para as videiras. A colheita manual é obrigatória, permitindo transportar os cachos inteiros até as unidades de prensagem. Durante a safra, cerca de 120 mil trabalhadores são mobilizados para a retirada das uvas, após avaliações da maturação, da acidez e das condições sanitárias que orientam o momento da colheita.
Por que o Champagne passa por duas fermentações
Depois da colheita, as uvas seguem para a prensagem, realizada de maneira controlada para limitar o contato do mosto com as cascas. Mesmo as variedades tintas podem originar vinhos brancos. O líquido passa pela primeira fermentação, quando as leveduras transformam os açúcares naturais das uvas em álcool, dando origem ao vinho-base.
Na etapa seguinte, os enólogos fazem a assemblage, combinação de vinhos provenientes de diferentes variedades, parcelas e, frequentemente, safras. A prática permite ajustar acidez, estrutura e aromas, além de manter características de elaboração entre os anos. Algumas casas utilizam vinhos de reserva, enquanto os Champagnes safrados, conhecidos como millésimés, são produzidos com uvas de um único ano.

A segunda fermentação acontece dentro da garrafa, após a adição de açúcar e leveduras ao vinho-base. Durante o processo, o gás carbônico permanece dissolvido no líquido sob pressão, formando a efervescência. Encerrada a fermentação, o vinho continua em contato com as borras das leveduras, que participam do desenvolvimento de aromas e da textura. Pelas regras da denominação, o Champagne permanece pelo menos 15 meses nas caves antes da comercialização. Para os safrados, o período mínimo é de três anos, embora alguns produtores prolonguem o envelhecimento. Antes da venda, os sedimentos são retirados pelo procedimento chamado dégorgement. A adição final de uma solução de vinho e açúcar determina categorias como brut e extra brut.
Os bilionários no negócio do Champagne
A produção de Champagne também faz parte dos investimentos de algumas das maiores fortunas acompanhadas pela Forbes. Entre elas está Bernard Arnault, controlador do conglomerado francês LVMH, proprietário de marcas como Moët & Chandon, Dom Pérignon, Veuve Clicquot, Krug, Ruinart e Mercier. Arnault e sua família estão entre os maiores bilionários do mundo na lista Forbes 2026. Em 2025, a divisão de vinhos e destilados da LVMH registrou receita de 5,36 bilhões de euros, incluindo negócios de Champagne, outros vinhos, conhaques e destilados.

O empresário francês François Pinault, fundador do grupo de luxo Kering, participa desse mercado por meio da holding familiar Artémis. Em 2022, o grupo adquiriu a Champagne Jacquesson, fundada em 1798 e localizada em Dizy, no Vale do Marne. A operação ampliou os investimentos da família em propriedades vitivinícolas, entre elas Château Latour, em Bordeaux, e Clos de Tart, na Borgonha. Diferentemente das marcas que trabalham com milhões de garrafas, a Jacquesson concentra sua atividade em uma produção anual de menor escala, com uvas provenientes de vinhedos próprios e de fornecedores selecionados.
Outro investidor é o rapper e empresário americano Jay-Z, cuja fortuna foi estimada pela Forbes em US$ 2,8 bilhões em março de 2026. Dono da Armand de Brignac, conhecida pelas garrafas metálicas identificadas com um ás de espadas, ele vendeu 50% do negócio à LVMH em 2021, mantendo a participação restante. A marca é produzida na região de Champagne pela família Cattier e comercializada no segmento de vinhos de preço elevado.
As famílias Taittinger e Rouzaud representam outro modelo de propriedade, no qual o controle permanece ligado à atividade vitivinícola regional. A primeira está à frente da Champagne Taittinger, enquanto a segunda controla a Louis Roederer, produtora do Cristal, e a Champagne Deutz. Fora desse grupo de famílias produtoras, o ator Brad Pitt participa da Fleur de Miraval, criada em parceria com as famílias Perrin e Péters para elaborar exclusivamente Champagne rosé. Esses negócios abrangem desde conglomerados internacionais até casas familiares e sociedades especializadas, que compartilham as mesmas exigências de origem e elaboração.
Como as mudanças climáticas mudaram a colheita neste ano
Na safra de 2026, as condições meteorológicas alteraram o calendário dos viticultores. Segundo comunicado divulgado pelo Comité Champagne em setembro, a região enfrentou geadas intensas na primavera, floração antecipada e cinco ondas de calor durante o verão. A maturação avançou e os primeiros produtores iniciaram a colheita em 6 de agosto, a data mais precoce registrada pela entidade. A partir do dia 17 daquele mês, o trabalho já estava disseminado pelos vinhedos, duas semanas antes do observado em 2025.

A antecipação da safra, historicamente concentrada em setembro, está entre os efeitos das mudanças climáticas acompanhados pelos pesquisadores. Temperaturas mais elevadas interferem na concentração de açúcares, na acidez e na disponibilidade de água para as plantas, exigindo ajustes no manejo. Em 2026, apesar da seca e do tamanho menor dos cachos, a avaliação inicial da entidade apontou condições sanitárias favoráveis e equilíbrio na composição das uvas.
As estratégias de adaptação incluem mudanças na condução das videiras, no manejo do solo e no acompanhamento da maturação. Desde 2003, quando realizou seu primeiro inventário de emissões de carbono, a cadeia também passou a adotar medidas para reduzir os impactos ambientais da viticultura, das instalações industriais e do transporte, incluindo alterações no peso das garrafas.
Enquanto os produtores avaliam os resultados da colheita de 2026, as casas produtoras administram estoques de vinhos de diferentes safras para abastecer o mercado. Como a denominação exige períodos mínimos de envelhecimento, parte das uvas retiradas dos vinhedos neste ano somente chegará às prateleiras a partir de 2027, conforme o tempo de elaboração de cada Champagne.