Cidade do Cabo recebe projetos do Rolex Mentor & Protégé

Rolex/Thomas Chéné
Sir David Adjaye e Mariam Kamara

As baquetas do baterista norte-americano Marcus Gilmore, de 33 anos, se fundem aos tapas que o indiano Zakir Hussain, de 68, desfere às tabas como se andassem de mãos dadas, levando ao delírio o público que lota o Baxter Theatre, na Cidade do Cabo, borda da África do Sul onde os oceanos Índico e Atlântico viram uma água só. O show hipnótico dos dois cresce até um clímax que, ao término, dispara uma salva de palmas quase sem fim. Alguns param de aplaudir apenas para limpar as lágrimas que escapam dos olhos.

Tamanha emoção se explica: trata-se do espetáculo que conclui o fim de semana (8 e 9 de fevereiro) do Rolex Mentor & Protégé, iniciativa da relojoaria suíça que patrocina uma mentoria artística individual de um mestre no assunto com um jovem talento emergente durante dois anos. Para tal, o mestre recebe 100 mil francos suíços (R$ 441 mil) ; o aprendiz, 40 mil francos suíços (R$ 176 mil).

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O programa é realizado desde 2002 e coloca em prática o legado deixado pelo fundador da marca, Hans Wilsford: a transmissão do conhecimento artístico de uma geração para outra, mesclando culturas de todos os continentes. Dois brasileiros já participaram: Gilberto Gil (mentor da egípcia Dina El Wedidi, biênio 2012-2013) e Julián Fuks (aprendiz do moçambicano Mia Couto, categoria literatura, biênio 2018-2019).

Rolex/Bart Michels
Zakir Hussain e Marcus Gilmore

Foi a primeira vez que a África recebeu a apresentação dos projetos de um ciclo – o evento nunca ocorreu na América do Sul. Além de Gilmore e Hussain na música, o último biênio contou com duplas de trabalho em arquitetura, literatura e dança – com um desfecho não menos emocionante. A jovem Khoudia Touré, de xx anos, referência em street dance em Dacar, no Senegal, protagonizou a world premiere da coreografia When the Night Comes, resultado da mentoria que a colocou em contato com a bailarina e coreógrafa canadense Crystal Pite. “O uso da improvisação foi a chave da nossa conexão”, diz Khoudia. “A mentoria com Crystal foi uma experiência poderosa. Mudou tudo para mim, a começar por ter ganhado confiança em meus instintos.” Para Crystal, a ligação com a aprendiz transcendeu as seis semanas de convívio distribuídas ao longo dos dois anos. “Atingimos uma conexão profunda, sem palavras. Esse programa tem o poder de ligar humanos de forma genuína, sem fronteiras.”

Rolex/Tina Rusinger
Khoudia Touré e Crystal Pite

Na arquitetura, o diálogo entre a jovem Mariam Kamara, nascida em Níger, e seu mentor Sir David Adjaye (arquiteto britânico nascido na Tanzânia, nomeado Cavaleiro pela rainha Elizabeth e fã de Oscar Niemeyer) resultou em um projeto que já tem data para começar a ser posto em pé. No segundo semestre, começa a tomar forma o Centro Cultural projetado para Niamei, capital do Níger, um dos países mais pobres do mundo. “Procurava me envolver com um trabalho na África, que só tem cinco escolas de arquitetura e muitos desafios”, argumenta David. “Escolhi mentorar Mariam pelo comprometimento dela em atuar por um futuro melhor para essa parte esquecida do planeta.” Literatura teve mentor e aprendiz do mesmo país. Colm Tóibín, de xx, e Colin Barrett, de xx, são irlandeses, mas “de mundos diferentes”, como sublinhou Colm.

Divulgação/Rolex
Colm Tóibín e Colin Barrett

O fim de semana na Cidade do Cabo teve ainda o anúncio dos mentores e aprendizes do próximo biênio em teatro, artes visuais, uma categoria aberta e cinema. Destaque para o cineasta Spike Lee, de 62 anos, que fará a mentoria do norte-americano Kyle Bell, de 33 anos, já reconhecido por trabalhar com a valorização dos índios nativos dos EUA.

Reportagem publicada na edição 75, lançada em março de 2020

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