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Prevenção ou “Wellbeing Washing”? O Que Pensam os CHROs sobre a Nova NR-1

Líderes de RH de gigantes como Amazon, Nestlé e Bradesco avaliam os impactos da atualização, que entra em vigor nesta terça-feira (26), sobre a saúde mental no trabalho no Brasil

7 min

O Brasil adoeceu no trabalho, e as empresas já sentem o impacto da crise de saúde mental. Após o país registrar um recorde de 546 mil afastamentos por transtornos psiquiátricos em 2025, a atualização da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) entra em vigor nesta terça-feira (26), exatamente um ano depois de ter sido adiada pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Líderes de RH de gigantes como Amazon, Nestlé e Heineken avaliam como a atualização, que entra em vigor nesta terça-feira (26), pode transformar a cultura corporativa e o cenário de saúde mental no Brasil

A NR-1, que reúne diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho, passou a incorporar questões específicas de saúde mental. A norma agora obriga as empresas a identificar, avaliar e mitigar riscos psicossociais no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), sob pena de multas e interdições.

As multas relacionadas às mudanças foram adiadas por mais 90 dias, segundo documento publicado pelo MTE. Valerá o critério da dupla visita: “Durante os 90 dias subsequentes à entrada em vigor, a atuação da Inspeção do Trabalho tende a priorizar ações de orientação, instrução e notificação das organizações quanto à necessidade de adequação, especialmente em relação às novas exigências introduzidas, sem prejuízo da adoção de medidas administrativas nos casos aplicáveis”, segundo documento do MTE.

Novo cenário da NR-1

A urgência da NR-1 é impulsionada por um cenário de crise de saúde mental sem precedentes. Segundo um estudo da Vittude que ouviu 174 mil profissionais, 45% dos brasileiros trabalham em ambientes de insegurança psicológica e quase 38% apresentam sintomas de sofrimento psíquico. Dados da Previdência Social apontam um salto de 800% nos casos de burnout nos últimos quatro anos.

Andrea Bianchi, vice-presidente de pessoas da Heineken, alerta que o esgotamento não respeita o crachá e ignora os portões da empresa. “Ninguém consegue desligar o chip e falar ‘agora eu sou pessoa física, mudo o chip, pessoa jurídica’. Esse chip é único”, afirmou.

A Forbes Brasil entrevistou a VP da Heineken e outras lideranças de recursos humanos para entender o que pensam os executivos da nova NR-1. As entrevistas foram feitas no HR Leaders Summit, evento da B2B Match que reuniu CHROs para discutir tendências do mercado de trabalho na última semana.

A atualização formaliza uma transformação que a pandemia já havia acelerado. “A norma tira a saúde mental do campo do ‘seria bom ter’ e coloca no campo do ‘é obrigatório fazer’”, disse Rafael Arroyo, CHRO da Amazon. “Isso significa que diagnosticar riscos psicossociais vira requisito legal, com escuta ativa dos trabalhadores, não com achismo de diretoria.”

Na prática, a norma impõe a inclusão obrigatória e o monitoramento contínuo de riscos como assédio, jornadas prolongadas e pressão abusiva por metas no mapeamento das empresas. “O melhor da NR-1 é ter um direcionamento claro para um plano de ação. Não é só dizer ‘estou ouvindo vocês e temos problemas’. É ‘o que vamos fazer com isso’”, afirma Carol Ferreira, diretora de pessoas e marketing da Alelo.

“Wellbeing washing”

Embora o adiamento da norma tenha oferecido um fôlego para que o mercado se adaptasse, há um receio generalizado entre os especialistas de que a obrigatoriedade gere ações vazias. Um estudo do McKinsey Health Institute aponta que os empregadores avaliam a saúde mental de suas equipes de forma 22% mais favorável do que os próprios funcionários. “A NR-1 precisa ter cuidado para não seguir o mesmo caminho da ginástica laboral nas organizações, quando teve a discussão sobre LER [Lesão por Esforço Repetitivo]. Vai lá, dá um ‘check’, fiz a ginástica. Resolveu o problema? Não”, adverte Priscila Siqueira, CRO da Gupy.

O chamado “wellbeing washing” descreve empresas que promovem uma aparência de cuidado com o bem-estar sem implementar mudanças reais e benéficas para os funcionários. “Não adianta só ‘parar para respirar’ e depois entrar em uma reunião e não ter um ambiente seguro e confiável para as pessoas se expressarem”, diz Fabio Levi, da Elo.

O desafio de criar ações concretas esbarra também em gatilhos que fogem dos muros corporativos. Silvana Machado, diretora executiva de RH e sustentabilidade do Bradesco, aponta fatores externos como o endividamento com apostas online. “Quando você percebe que seu funcionário tem um vício em um jogo, não adianta lavar as mãos e dizer que não é da conta da empresa. A gente tem que cuidar. Por isso é preciso ter método e equipes.”

Prevenção e performance sustentável

Algumas empresas já implementaram estruturas de prevenção que vão além do exigido pela NR-1. O esforço não acontece por acaso: a economia global perde US$ 8,9 trilhões anualmente devido às quedas de produtividade atribuídas a problemas de saúde mental, segundo a Gallup. “É necessário colocar essa imposição da NR-1 para que depois vire algo natural, mas muitas empresas já estão pensando no final do processo. Como você previne as crises de saúde mental é o grande movimento”, analisa Suzie Clavery, CHRO da TotalPass.

Na Nestlé, essa prevenção começou com um letramento interno. Fabricio Pavarin, diretor de total rewards e people analytics da companhia, conta que foram treinadas 500 pessoas em parceria com o Einstein Hospital Israelita para formar uma “brigada de bem-estar mental“. O objetivo é ter pontos focais nas operações para identificar colegas em sofrimento. “Esse barco saiu. Se eu fechar os olhos para ele, vou ter problemas depois. Entendo que sem saúde mental não existe performance sustentada”, diz o executivo.

Os resultados de uma cultura preventiva refletem diretamente nos indicadores. Na Heineken, por exemplo, o índice de funcionários afastados é de apenas 1%, contra uma média de 15% no mercado brasileiro. “Isso mostra que a estratégia de ter um plano de ação, cuidar da saúde, da felicidade e ouvir os funcionários, na prática, tem funcionado”, afirma Andrea Bianchi.

A prevenção também passa por entender que a crise não se resolve apenas na terapia. “A maioria das empresas acho que só vai ajudar dando auxílio psicológico. Não é isso. Às vezes, é dar educação financeira ou levar o colaborador para um lugar onde ele entenda que a situação em que ele está é um problema”, diz Pontes, da Petz.

O que esperar do futuro com a nova NR-1

Com a entrada em vigor da atualização da NR-1, o consenso entre os executivos é que os indicadores de saúde mental no Brasil devem, paradoxalmente, piorar antes de começarem a melhorar. “No curto prazo, vamos passar por um período de ajuste doloroso. A tendência é vermos um aumento temporário nos registros de afastamentos, porque o diagnóstico e a transparência vão trazer à tona problemas que antes ficavam subnotificados”, projeta Rafael Arroyo, da Amazon.

A expectativa de longo prazo é otimista, mas os CHROs afirmam que a transição exigirá paciência para transformar a forma como se trabalha no Brasil. “O mercado precisa dar um basta para a crise de saúde mental. E o primeiro canal é criar confiança dentro da organização”, diz Levi, da Elo. Para Pontes, da Petz, não há caminho de volta: “Tudo aquilo que é cobrado tem uma tendência de melhora. Se você viu que tem um problema e precisa atuar sobre ele, não dá mais para desver.”

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