Você certamente já viveu esta situação: encontra um amigo, ele fala por horas, e tudo o que você consegue fazer é balançar a cabeça e murmurar palavras monossilábicas como “hum” ou “sei”.
É possível que o seu amigo se despeça de você feliz da vida por ter tido a oportunidade de atualizá-lo a respeito da vida dele. É possível também que você tenha ficado aliviado porque estava ficando cansado de tanta falação. Será que podemos chamar isso de uma boa conversa?
Somos seres sociais, e a comunicação está na base da construção de vínculos com quem está ao nosso redor. Talvez por ela ser um ato tão natural no nosso cotidiano, não damos tanta atenção a ela. É como se conversar fosse a coisa mais espontânea do mundo. E não é.
Logicamente, conversar envolve falar, mas nem toda fala se traduz em uma conversa significativa. Uma boa conversa não é um simples jogo de pingue-pongue, onde um fala e outro replica, nem se trata de alguém falando sozinho enquanto o outro está com a cabeça no mundo da lua. Diz respeito a praticar a escuta ativa.
Isso significa voltar-se verdadeiramente ao outro, ou seja, realmente prestar atenção ao que aquela pessoa diz, perguntar quando algo não ficou claro para você, deixar que o seu interlocutor termine de expressar algo e não ficar interrompendo a fala dele só porque ele trouxe algo que eventualmente você não concorda. É ser empático, acolhendo o que a pessoa diz a você.
A habilidade de conversar bem não apenas é a chave para estabelecer e fortalecer novos laços, como também de consertar aqueles que estão feridos, e isso inclui também relações criadas no ambiente de trabalho. No âmbito profissional, significa cativar o recrutador, ou sair-se bem em reuniões de avaliação.
Uma boa conversa nos ajuda a encontrar ideias para resolver problemas que eventualmente não conseguimos solucionar, a tomar decisões mais embasadas e sábias e a ganhar novas perspectivas sobre situações em que nos encontrávamos paralisados. Não por acaso, ela é a base de profissões como o coaching, a terapia e a mentoria.
Manter conversas genuínas e de qualidade também é essencial ao nosso bem-estar. Quanto mais você ouve a pessoa com quem conversa, quanto mais você demonstra cuidado, quanto mais tempo reserva para valorizar as opiniões daquela pessoa, melhor você se sente ao final do dia, mostrou um estudo de 2023. E basta apenas uma boa conversa por dia para sentirmos esses benefícios. Poder expressar a alguém nossos sentimentos e dificuldades ajuda a reduzir pensamentos e emoções negativas, sendo um fator protetivo contra ansiedade e depressão.
É possível que, ao finalizar este texto, você tenha entendido o poder de uma boa conversa. Agora resta praticá-la. Ao se dedicar a ouvir de verdade, a colocar-se no lugar do outro e reconhecer e valorizar as ideias dele, você fortalece as suas relações e suas oportunidades.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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