Outro dia, atendi um alto executivo que chegou a mim com queixa de problemas para dormir. Durante a consulta, tomei ciência de sua rotina ultraintensa, quase impossível, das cobranças da matriz para que ele chegasse às metas previstas no início do ano, e de como, para dar conta de tudo, começou inicialmente a tomar um remédio para o tratamento de TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade). Logo percebeu que isso era pouco e passou a adicionar outro e mais outro medicamento. Em pouco tempo, começaram a pipocar efeitos colaterais, entre eles, distúrbio do sono.
Entrega, performance, desempenho. No mundo corporativo de hoje, a busca por resultados virou a regra. A pressão é tanta que muitos executivos, assim como o que eu atendi, passaram a sentir que 24 horas já não são suficientes para dar conta do recado. Esse tem sido o cenário perfeito para o surgimento de um fenômeno silencioso e arriscado: o doping corporativo.
Assim como o doping esportivo, o corporativo refere-se ao uso de substâncias por altas lideranças para melhorar a performance. A ideia é aumentar o foco de forma artificial com o objetivo de fazer a produtividade crescer.
As substâncias mais buscadas são velhas conhecidas do nosso dia a dia (o álcool, por exemplo) e do campo da saúde. Entre elas, estão uma pílula para o TDAH, que passou a ser usada na tentativa de aumentar o foco e a concentração. Outras, indicadas para sonolência excessiva durante o dia, são agora usadas para aumentar o estado de alerta.
Esses medicamentos que ganharam espaço no mundo corporativo são conhecidos popularmente como ‘smart drugs’ (drogas inteligentes, em português). O objetivo é obter melhora da performance cognitiva – atenção, memória e até o funcionamento executivo, como planejamento e resolução de problemas. Mas aqui vai um alerta: esses remédios são de uso controlado e indicados para tratar questões bem específicas.
A tentação de tomar um comprimido para virar um ‘super-homem’ da noite para o dia é grande. Maior ainda porque há algumas evidências de que inicialmente há uma pequena melhora. Mas logo o suposto ganho se transforma em enorme prejuízo: dependência grave.
Além disso, essas substâncias mascaram o cansaço e a sobrecarga de trabalho. E o risco, todos sabemos, é de burnout. E mais: o uso descontrolado e sem acompanhamento médico aumenta as chances de hipertensão, de dificuldades para dormir, de problemas do coração e até de alterações de comportamento como ansiedade, agressividade e falta de criatividade.
E, ainda, quando os efeitos pouco duradouros desses remédios passam, essas pessoas são acometidas por enorme depressão, ideias de menos-valia e perda da libido.
O doping corporativo, assim como acontece no meio esportivo, nos traz algumas questões para reflexão: com ele, o jogo se torna desleal e desigual. É ético fazer isso? Outro ponto para pensarmos: o uso dessas smart drugs também ajuda a mascarar problemas que talvez estejam na própria organização – por exemplo, uma cultura excessivamente competitiva.
Os altíssimos índices de afastamento por problemas de saúde mental acendem o alerta de que talvez seja hora de abandonar a velha máxima do ‘no pain, no gain’, ou seja, de que não há ganhos sem grande esforço, sacrifício e dor.
Não há performance sustentável possível sem equilíbrio. E isso significa fazer uma organização inteligente do trabalho, garantir que você tenha momentos de lazer e dormir bem.
Se a pressão do trabalho é resultado de uma cultura que desconsidera o fator humano, talvez seja o momento de repensar se este é um bom ambiente para trabalhar ou, então, lutar para melhorar a cultura. Agora, se a pressão é você mesmo quem a impõe, o caminho talvez seja buscar ajuda de um profissional para, junto com você, entender o que você ganha com isso, mesmo colocando a sua saúde e saúde mental em risco. Lembre-se, o seu valor não está no remédio, mas na sua saúde.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da Forbes Brasil e de seus editores.