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A Conversa Mais Importante do Dia Pode Ser com Você Mesmo

O diálogo interno pode fortalecer o autocuidado, melhorar decisões e reduzir o estresse, desde que seja mais acolhedor do que crítico

3 min

Eu converso comigo todos os dias, especialmente no chuveiro e enquanto passeio com meus cachorros, momentos em que estou voltado para mim. Na rua, porém, isso costuma causar estranhamento. Não é raro que algumas pessoas me olhem como se eu tivesse algum problema. Afinal, não é comum presenciarmos alguém mantendo uma conversa íntima consigo em público.



Ainda assim, falar consigo mesmo está longe de ser uma esquisitice. Seja em voz alta ou em pensamento, esse é um comportamento humano comum e potencialmente benéfico para a saúde mental.

No consultório, não é raro observar que pacientes capazes de refletir sobre o que sentem antes de agir tendem a lidar melhor com frustrações e pressões do dia a dia. Criar um pequeno intervalo entre emoção e ação faz diferença na forma como enfrentamos o estresse cotidiano e tomamos decisões.



O diálogo interno ajuda a organizar pensamentos e a trazer a atenção de volta ao momento presente, melhorando o foco. Ele também cria uma pausa entre o impulso e a resposta. Um exemplo cotidiano disso acontece quando, irritados após alguém cometer uma barbeiragem no trânsito, nos fazemos a seguinte pergunta: “vale a pena reagir a isso”? Essa simples pergunta a nós mesmos pode mudar o desfecho da situação.

Esse diálogo também funciona como uma forma de autocuidado. Ele permite revisar decisões, avaliar prioridades e evitar decisões tomadas no automático, o que pode nos levar a enrascadas. Quantas vezes nos comprometemos além do necessário simplesmente por não termos parado para refletir?



Claro que nem toda conversa interna é saudável. Quando esse diálogo se torna excessivamente crítico, repetitivo ou acusatório, pode alimentar ansiedade, culpa e ruminação. O ponto, portanto, não é silenciar a nossa voz interna, mas transformá-la: torná-la mais curiosa do que acusatória, mais acolhedora do que hostil.

Falar consigo mesmo não é sinal de fraqueza, mas de atenção a si. Em um mundo que exige respostas rápidas e pouco espaço para pausa, talvez uma das práticas mais simples e potentes de cuidado seja aprender a conversar consigo mesmo com mais gentileza e intenção.

*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da Forbes Brasil e de seus editores.

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