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A Positividade Que Pode Render Anos de Vida

Uma percepção positiva do envelhecimento está associada a melhores indicadores de saúde física

3 min

Vou confessar que tenho escutado em algumas conversas casuais que talvez eu devesse pensar em me aposentar. Como, se eu vivo a fase mais produtiva da minha vida? Essas falas reverberam em mim, porque eu sou uma pessoa que encara o envelhecer de uma forma muito natural. Procuro extrair dessa fase o que de melhor ela pode me dar: a convivência com os netos, os fins de semana fora de São Paulo, a escrita de novos projetos sem a urgência de antes, a descoberta de novas formas de mexer o corpo que têm me trazido tanto prazer quanto era o triatlo. E aqui incluo o passeio diário, duas vezes por dia, com meus cachorros.

Foi interessante descobrir que há pesquisadores estudando exatamente isso: a relação entre a forma como pensamos o envelhecer e o modo como envelhecemos. O que essas pesquisas mostram é que quem sente ter algo pela frente (eu estou nesse grupo) tende a seguir as recomendações médicas, se exercitar mais e continuar investindo nos vínculos sociais.

O inverso também vale e é o que me chamou a atenção. Quem se convenceu de que envelhecer significa um declínio inevitável tende a fazer menos atividade física, abandonar projetos e até negligenciar consultas médicas! No fim das contas, acaba por acertar a própria previsão de decadência, pois é como se abandonassem o autocuidado.

Um estudo de 2002 que acompanhou um grupo 50+ por mais de 20 anos mostrou que quem enxergava o próprio envelhecimento de forma positiva viveu, em média, 7 anos e meio a mais.

Os próprios pesquisadores lembram que isso não é uma prova de que essa positividade nos faz ganhar anos de vida, mas que autocuidado e positividade em relação ao envelhecer andam juntos.

Pesquisas mais recentes foram atrás do como: uma perspectiva positiva sobre o envelhecimento aparece associada a melhores indicadores de saúde, entre eles menos cortisol e menos marcadores de inflamação.

Nada disso quer dizer que envelhecer seja fácil. Ficar doente, cuidar de quem se ama, perder alguém abala qualquer perspectiva.

Há algo ainda mais bacana em relação a esses estudos. Sentir que você continua fazendo a diferença para alguém, o que estudiosos chamam de mattering, leva as pessoas a cuidarem mais da própria saúde, a investirem mais na própria vida e a permanecerem presentes para os outros.

O mattering não depende de grandes gestos. Frequentar um café ou um parque para cães já sustenta essa sensação. Talvez seja isso que eu queira dizer a quem me sugere a aposentadoria. Não é propriamente a agenda que ainda me segura, mas a sensação de ainda fazer falta em algum lugar. Ela está no texto que entrego toda semana e está também no passeio que meus cachorros me obrigam a fazer diariamente, faça chuva ou faça sol.

*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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