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Região de Cabernet Sauvignon Mais Bem Avaliada Nasce de uma Pequena Comunidade de Produtores

Conheça a história de Red Mountain, no Estado Washington, que parecia um deserto estéril, com areia marrom a perder de vista, onde um grupo de viticultores apostaram no que a terra poderia dar

10 min

Palavras que despertam curiosidade, como “banquete de grafite, violetas, pedras trituradas”, começaram a criar expectativa, seguidas por “taninos ultrafinos”, até que o golpe final veio com “tinto absurdamente bom”, fazendo o pulso acelerar quando aqueles três dígitos se materializaram: 100 pontos.

Sim, era um Cabernet Sauvignon, o que não surpreendeu. O inesperado foi o local. Não era a Califórnia e a nem sua referência histórica, Bordeaux. Era o Estado de Washington. Mas não qualquer região do Estado de Washington. Era Red Mountain.

Para conhecedores atentos de Cabernet Sauvignon, que sabem onde estão os grandes terroirs fora da Califórnia e de Bordeaux, Red Mountain não foi exatamente um choque. Para muitos, o incômodo veio do fato de o segredo ter sido descoberto, já que se trata de uma área vitivinícola oficialmente delimitada, pequena, com produção muito contida. Há apenas uma quantidade restrita de vinho disponível.

Felizmente para os apreciadores de Red Mountain, isso não paralisou o mundo do vinho como ocorreu em Napa Valley. Muitos dos principais Cabernets de Red Mountain ainda podem ser encontrados por menos de US$ 100 (R$ 500 na cotação atual), algo raro em Napa.

Existem, inclusive, diversos excelentes Cabernet Sauvignons abaixo de US$ 50 (R$ 250), algo praticamente impensável no atual universo dos vinhos ultraprêmio. No entanto, como o primeiro vinho de Red Mountain a receber 100 pontos surgiu apenas há poucos anos, essa acessibilidade pode não durar.

Assim como muitos colecionadores veteranos recordam com carinho os grandes Cabernets de Napa e Bordeaux comprados a preços irrisórios décadas atrás, esse pode vir a ser o futuro das lembranças associadas aos Cabernets de Red Mountain.

O início da história

Tudo começou há 50 anos, quando dois cientistas de materiais, entusiastas da agricultura, decidiram comprar terras em uma área do Estado de Washington que parecia um deserto estéril, com areia marrom a perder de vista, pontuada ocasionalmente por arbustos de sálvia. Foi aí que eles começaram a plantar uvas viníferas.

Nos anos 1970, ainda era questionável se uvas de qualidade poderiam prosperar em qualquer parte do estado, dado o clima mais ao norte. O cultivo de uvas tintas premium era considerado impossível. Ainda assim, Red Mountain se tornou uma das regiões mais empolgantes para Cabernet Sauvignon a surgir nas últimas décadas.

Travis GillettJohn Williams, produtor de uvas em Red Moutain

Os dois pioneiros foram John Williams e Jim Holmes. Eles não apenas plantaram o primeiro vinhedo de Cabernet Sauvignon em Red Mountain, mas também o primeiro vinhedo da região. Passaram grande parte do tempo livre trabalhando com o doutor Walter Clore, conhecido como o “Pai do Vinho de Washington”, na Washington State University, em Prosser, onde conduziam um experimento contínuo para avaliar a viabilidade comercial da Vitis vinifera, as variedades europeias de alta qualidade, no estado.

John e Jim trabalharam no vinhedo experimental, aprenderam tudo o que puderam e concluíram que era seguro plantar Riesling e Chardonnay. O Cabernet Sauvignon, ironicamente, foi um risco calculado. Eles também fizeram questão de manter tempo para suas famílias, já que o envolvimento familiar no plantio e no manejo era essencial, pois não havia mais ninguém para ajudar.

A parceria entre John e Jim durou 20 anos. Pensando no futuro de suas famílias, decidiram de forma amigável seguir caminhos separados, cada um criando seu próprio negócio familiar, com John mantendo os vinhedos originais. Com o tempo, ambos passaram a produzir seus próprios vinhos, continuaram amigos e até viajavam juntos.

Segundo JJ Williams, neto de John e gerente geral da Kiona Vineyards, o espírito agrícola permanece no centro do que fazem. A família produz relativamente pouco vinho e vende grande parte de suas uvas provenientes de seus 110 hectares destinados a vinícolas ultraprêmio, listadas com orgulho em seu site. Considerando que a AVA de Red Mountain tem apenas  1.600, em comparação com os cerca de 49.000 hectares do Vale de Napa, e que a maior parte da área já está plantada, há pouco espaço para expansão. O volume atual é, provavelmente, o máximo que a região produzirá, limitado também por rendimentos naturalmente baixos, em razão do clima árido, com apenas 127 a 152 milímetros de chuva por ano, além de ventos constantes e intensos

O que é o Kiona Vineyards

O nome Kiona vem de uma palavra indígena que significa “colinas marrons”. É uma descrição humilde de um lugar cuja grandeza não era evidente à primeira vista, mas estava escondida nos solos pobres em nutrientes, bem drenados, e nas diferentes exposições, que produzem bagas pequenas, de casca espessa, acidez preservada e uma mineralidade marcante, responsável por um forte senso de lugar.

Travis GillettJJ e Tyler Williams continuam seguindo a tradição

JJ Willians explica que a história dos solos antigos geralmente começa com a Era do Gelo, há mais de 10.000 anos, quando solos arenosos e pedregosos, pobres em nutrientes, foram depositados sobre basalto vulcânico.

A segunda parte da história é menos conhecida. Os ventos predominantes do Pacífico atravessam o Vale de Willamette até Red Mountain, a cerca de cinco horas de distância, trazendo sedimentos finíssimos de sua bacia de drenagem, depositados ali com tamanho e uniformidade muito específicos.

Assim, Red Mountain possui solos eólicos, formados pelo vento, algo diferente das regiões com solos aluviais trazidos por rios. É por isso que um grande Cabernet Sauvignon de Red Mountain não se parece com um de Bordeaux ou Napa. Ele tem uma identidade própria, impossível de replicar em outra região.

Após ampla formação e experiência, JJ Williams e seu irmão Tyler ingressaram no negócio da família como gerente geral e enólogo, respectivamente, dando continuidade ao legado de pais e avós. O objetivo original do avô era manter a empresa familiar ativa por 100 anos.

A família segue fiel a esse compromisso: sem dívidas, sem investidores, 100% familiar, com os primeiros 50 anos já cumpridos. Esse objetivo foi estabelecido antes de Red Mountain receber tanta atenção da crítica, o que torna plausível imaginar que a vinícola perdure por séculos.

Personalidades e lugar

O compromisso da família Williams com o cultivo das melhores uvas, contribuindo para a qualidade dos vinhos de diversos produtores de Red Mountain que compram suas uvas, e com a produção de vinhos ultraprêmio a preços acessíveis, é notável.

Shawn LinehanUvas colhidas à mão no vinhedo Heart of the Hill da Kiona, na região de Red Mountain

Ainda assim, JJ Williams faz questão de reconhecer os demais fundadores da região, que cultivam uvas e produzem vinho há 20 ou 30 anos. Entre eles estão Jim Holmes, com o vinhedo Ciel du Cheval, a família Gelles, fundadora do Klipsun Vineyard, e Anne-Marie e Tom Hedges, da Hedges Family Estate. Foram eles os principais articuladores da criação da AVA de Red Mountain, em 2001.

Apesar de seu tamanho reduzido, conseguiram demonstrar que a área tinha um caráter único em relação às regiões vizinhas. Grandes nomes como Antinori e Chateau Ste. Michelle investiram em Red Mountain em 1995 e fundaram juntos a vinícola Col Solare, que passou a ser integralmente controlada pela Antinori em 2024.

Para os pioneiros, além de terras excepcionais, era essencial um compromisso coletivo com a qualidade. Não houve acordo formal, mas todos compartilhavam ambição e determinação. Red Mountain não é para quem busca grandes volumes ou vinhos simples. As condições naturais favorecem baixos rendimentos.

A família Williams celebra o sucesso de outros produtores da região, já que muitos compram suas uvas. Quando eles vencem, a família também vence. JJ se anima tanto com o sucesso de grandes quanto de pequenas vinícolas, pois isso fortalece o nome Red Mountain. O que ainda o frustra é ouvir que não se encontra um grande Cabernet Sauvignon por menos de US$ 50 (R$ 250), quando a Kiona oferece um Cabernet estate bottled por US$ 35 (R$ 175).

A família está ligada a todos os capítulos da história da região, inclusive ao primeiro vinho comercial lançado em 1978, produzido com as primeiras uvas do vinhedo original. O vinho foi elaborado pela Preston Premium Wine, com um jovem enólogo formado em UC Davis, Rob Griffin. Hoje, Rob e sua esposa são proprietários da Barnard Griffin Winery.

Onde está a comunidade?

Em um momento em que muitos enfrentam a falta de senso de comunidade, a família Williams integra um coletivo interligado, no qual o sucesso de um sinaliza o potencial de sucesso dos outros. Quatro gerações vivem próximas ao Kiona Estate. A avó Ann mora dentro do complexo da vinícola, os pais nas proximidades, e os filhos de JJ crescem em um ambiente cercado de apoio. Não é raro ver Ann buscar a correspondência ao lado da vinícola e levar cartas para o escritório.

Família WilliamsAnn e John Williams no local ondefoi plantado o primeiro vinhedo em Red Mountain

Para a família Williams, não houve crise de comunidade, nem de dívidas, nem de investidores predatórios. Eles apostaram no lugar e nas pessoas, e essa aposta se pagou amplamente. Vivem um novo sonho americano: prosperar porque a comunidade prospera.

Hoje, a Kiona Vineyards cultiva 20 variedades de uvas. Embora os Cabernets sejam os principais destaques, a vinícola investe na diversidade da região, oferecendo desde um Lemberger fácil de beber por US$ 20 (R$ 100) até um Malbec ultraprêmio por US$ 40 (R$ 200) e um Ice Wine de Chenin Blanc por US$ 65 (R$ 325). A Kiona também optou por garrafas mais leves, alinhada ao compromisso ambiental, mesmo contrariando a percepção de que garrafas pesadas transmitem mais prestígio.

Vinhos dominados por Cabernet Sauvignon da Kiona Vineyards

2022 Kiona, Estate Bottled Cabernet Sauvignon, Red Mountain, Washington State
Preço: US$ 35 (R$ 175)
Composição: 88% Cabernet Sauvignon, 8% Cabernet Franc, 2% Malbec, 2% Petit Verdot. Aromas de violetas, noz-moscada ralada e framboesa quente. Paladar elegante, com fruta pura e taninos bem integrados.

2022 Kiona, Estate Bottled Reserve, Red Mountain, Washington State
Composição: 49% Cabernet Sauvignon, 27% Merlot, 18% Cabernet Franc, 6% Petit Verdot. Mineralidade mais intensa, notas terrosas e taninos finamente texturizados.

2022 Kiona, Estate Bottled Cabernet Sauvignon, Heart of the Hill Vineyard, Red Mountain, Washington State
Composição: 82% Cabernet Sauvignon, 12% Merlot, 6% Petit Verdot. Vinho multifacetado, com notas de cassis, trufas, pétalas de rosa e pedras úmidas, de final longo e preciso.

Outros vinhos varietais da Kiona Vineyards

2022 Kiona, Estate Bottled Lemberger, Red Mountain, Washington State
100% Lemberger. Cerejas maduras, pimenta-preta, taninos macios e acidez vibrante. Ideal levemente resfriado.

2022 Kiona, Estate Bottled Mourvèdre, Heart of the Hill Vineyard, Red Mountain, Washington State
Expressivo, com sálvia, alecrim, terra quente e frutas negras.

2022 Kiona, Estate Bottled Malbec, Red Mountain, Washington State
Preço: US$ 40 (R$ 200).
Produção limitada. Frutas silvestres, grafite, pedras trituradas, taninos finos e final longo e especiado.

(as descrições acima correspondem às notas de degustação de Cathrine Todd. Todos os vinhos foram degustados em 16 de novembro de 2025)

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