O Brasil, em 2025, gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos. Deste total, apenas 9% foram reciclados, ou seja, 7,1 milhões de toneladas, e 40% tiveram destinação inadequada, segundo dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente.
Atualmente, temos muito lixo eletrônico. A pergunta é: para onde foram os aparelhos velhos, carregadores de celular, baterias e outros eletrônicos que entopem suas gavetas? Isso vale para móveis, lâmpadas, peças de veículos e tudo o que consumimos, agora, tudo terá de ser reciclado.
Responsabilidade compartilhada e logística reversa
O Brasil tem uma Política Nacional de Resíduos Sólidos que distribui responsabilidades entre fabricantes, distribuidores, comerciantes, consumidores e poder público. A logística reversa garante o retorno de produtos, embalagens e materiais após o consumo para reaproveitamento, reciclagem ou destinação adequada.
O produto crítico do setor agrícola no Brasil, sabemos, são as embalagens de defensivos agrícolas: insumos químicos que, com o compartilhamento de responsabilidade entre produtores, indústria, distribuidores e canais da cadeia do agronegócio, permitem ao Brasil deter o título de país que mais recicla embalagens de defensivos agrícolas no mundo, atingindo em torno de 92% de devolução e reciclagem.
A Europa (França e Alemanha) e o Canadá recolhem em torno de 70%, utilizando sistemas semelhantes de responsabilidade compartilhada entre fabricantes, agricultores e governo. O Japão recolhe 50%. Nos Estados Unidos, a taxa é estimada em 30%, com programas variando fortemente de acordo com a regulamentação de cada estado e iniciativas das próprias fabricantes.
O papel do inpEV e o Dia Nacional do Campo Limpo
E no centro deste trabalho está o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), entidade sem fins lucrativos formada pelas associações das indústrias de agroquímicos no Brasil. O instituto criou o “Dia Nacional do Campo Limpo”, que no dia 18 de agosto de 2026 chega à sua 22ª edição.
A data faz parte do calendário nacional para celebrar a logística reversa de embalagens vazias de defensivos agrícolas, promovendo a conscientização ambiental e homenageando a cadeia do agronegócio.
Trata-se de uma instituição que não recebe subsídios do governo, tendo sido criada pelo próprio setor do agronegócio para atender à cadeia agro. O sistema não recolhe embalagens de outros setores, como produtos de limpeza doméstica ou defensivos de uso urbano e jardinagem.
Desde 2002, o Sistema Campo Limpo já destinou mais de 932 mil toneladas de embalagens vazias de defensivos agrícolas e caminha para alcançar a marca histórica de 1 milhão de toneladas no início de 2027. Em 2026, a previsão é de receber 87.500 toneladas.
Expandindo horizontes e reduzindo emissões
Os agricultores sabem que, após utilizar seu defensivo agrícola na lavoura, devem levar as embalagens vazias de volta ao local de compra, seja na loja distribuidora, seja na cooperativa, ou destiná-las diretamente à central coletiva de recolhimento. Essa logística reversa aos poucos, embora sem legislação específica, está se expandindo para outros ramos agropecuários, como sacarias de ração, fertilizantes e produtos veterinários, áreas em que ainda existe a necessidade de melhorias na destinação final de resíduos.
E a contribuição para mitigar a emissão de CO2 se faz muito relevante: cada embalagem de 20 litros produzida com resina reciclada evita a emissão de 1,24 quilo de CO2 equivalente na atmosfera. Ao termos cem embalagens de 20 litros recicladas, temos o equivalente, em captura de carbono, ao plantio de uma árvore, já que uma árvore, ao longo de 20 anos, absorve entre 120 e 130 quilos de carbono da atmosfera (Instituto Brasileiro de Árvores).
E a Campo Limpo, única empresa brasileira dedicada à fabricação de embalagens recicladas para defensivos agrícolas, tem hoje capacidade produtiva de 17 milhões de embalagens recicladas por ano.
Trata-se, sem dúvida, de um sistema competente e ainda pouco conhecido no Brasil, que conquistou o Selo Ouro no Programa Brasileiro GHG Protocol (FGVces) no ciclo 2025, o mais alto nível de qualificação do programa,, em reconhecimento à sua relevante contribuição para a mitigação das mudanças climáticas.
Como funciona a cadeia da reciclagem
Do total recolhido, cerca de 92% são encaminhados à reciclagem, transformando-se em novas embalagens de defensivos agrícolas. Os demais 8%, que por características do material não podem ser reciclados, recebem destinação ambientalmente adequada por coprocessamento (recuperação energética) ou incineração, de modo que 100% das embalagens devolvidas têm destino ambientalmente correto.
O sistema de devolução ocorre através de uma rede com mais de 400 postos e 5 mil centrais de recebimento espalhados por todo o Brasil e funciona da seguinte forma: a indústria fabricante financia, e o sistema é responsável por retirar os recipientes dos postos de recebimento e dar a destinação final.
Os canais de distribuição e cooperativas fazem a comunicação dos locais adequados para a devolução e emitem os comprovantes de entrega para o agricultor. O agricultor tem a obrigação legal de realizar a tríplice lavagem (ou lavagem sob pressão) da embalagem, inutilizar o recipiente para evitar reutilização e devolvê-lo dentro do prazo de 1 ano na unidade indicada.
O produtor recebe o comprovante de devolução e deve guardá-lo por cinco anos; é a prova de que fez a destinação correta da embalagem. Por fim, o poder público é responsável por licenciar e fiscalizar as unidades de recebimento.
Essas iniciativas das unidades de recebimento de embalagens inspiram a comunidade a refletir sobre seu papel na conservação do meio ambiente e a adotar práticas mais sustentáveis.
Um orgulho para a agricultura brasileira, hoje referência mundial em logística reversa de embalagens de defensivos agrícolas. Em pouco mais de duas décadas, o setor que decidiu assumir a gestão de seus próprios resíduos saiu de 3.800 toneladas recicladas em seu primeiro ano de operação para 76 mil toneladas anuais, um salto que já soma mais de 900 mil toneladas destinadas corretamente desde 2002.
É um modelo de corresponsabilidade que colocou todos os elos da cadeia, agricultor, indústria, distribuição e poder público, para compartilhar a responsabilidade de cuidar do meio ambiente e, assim, proteger nosso habitat.
*Nina Plöger é presidente do Forbes Mulher Agro (FMA) e empresária do setor de reflorestamento, e cultiva café sustentável. É formada em administração e pós-graduada em economia e em governança e compliance. Integra o Comitê Sustentabilidade da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), é membro do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Fiesp; do Conselho Empresarial da América Latina (CEAL) e do Movimento Empresarial pela Inovação (MEI), da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
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