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Bancos Disputam a Próxima Geração de Investidores desde a Infância

XP lança a Conta Menor em meio à expansão de soluções financeiras para crianças e adolescentes, segmento que já conta com iniciativas do Banco do Brasil e do Bradesco

7 min

A corrida dos bancos para conquistar clientes cada vez mais jovens ganhou mais um participante. A XP anunciou na quinta-feira (8), o lançamento da Conta Menor, solução gratuita que reúne serviços bancários e investimentos em um único aplicativo. Disponível para toda a base de clientes da instituição, o produto permite que menores de 18 anos tenham acesso a Pix, pagamentos, cartão de débito digital, aplicações em renda fixa e negociação de ações na B3.

A abertura é feita pelo aplicativo do responsável legal, sem idade mínima, desde que a criança ou o adolescente tenha CPF válido. O titular passa a ter login próprio, enquanto os pais ou responsáveis podem acompanhar saldos, extratos e movimentações. A partir dos 12 anos, também é possível habilitar a validação por biometria facial.

Na parte de investimentos, a XP restringe o acesso de menores às operações do segmento BM&F, que inclui derivativos e contratos futuros. A proposta é oferecer uma experiência prática de organização financeira sem liberar todas as modalidades de negociação disponíveis aos adultos.

“A educação financeira na infância não é sobre transformar crianças em investidoras, mas sobre criar uma relação mais consciente com o dinheiro desde cedo”, afirma Mauricio Ribeiro, head de Produtos Digitais da XP.

A novidade, porém, vai além de uma ferramenta para administrar a mesada. Para as instituições financeiras, oferecer uma conta na infância também representa a oportunidade de estabelecer um relacionamento que poderá acompanhar o cliente por décadas, da primeira transferência via Pix à formação de patrimônio.

A XP não inaugura essa categoria no país. O Banco do Brasil oferece a BB Cash, conta digital gratuita para crianças e adolescentes de até 17 anos, com Pix, cartão, ferramentas para guardar dinheiro e acesso a investimentos. A instituição também disponibiliza o Cofrinho BB e produtos de renda fixa voltados a facilitar o primeiro contato com aplicações financeiras.

Em dezembro de 2024, o BB informou que o número de clientes menores de 18 anos com saldo em investimentos havia crescido 13% em 12 meses. Segundo a instituição, 30% dos clientes da BB Cash já investiam, enquanto o patrimônio aplicado em fundos voltados a esse público havia avançado 126% em 2024, chegando a R$ 77 milhões. Os números são dados divulgados pelo próprio banco.

O Bradesco, por meio do banco digital next, também oferece a nextJoy, conta destinada a crianças e adolescentes com recursos para administrar gastos e participação dos responsáveis.

A semelhança entre as propostas revela uma disputa que não se restringe à conquista de depósitos. Ao aproximar os jovens de suas plataformas, os bancos podem criar familiaridade com seus aplicativos e serviços, enquanto os pais ganham um ambiente para administrar parte da vida financeira dos filhos.

Para a XP, que construiu sua posição no mercado brasileiro em torno de investimentos e assessoria financeira, a integração entre conta de pagamentos e carteira de investimentos também amplia as possibilidades de relacionamento dentro do próprio ecossistema.

A diferença em relação a uma conta exclusivamente transacional está no acesso direto ao mercado de capitais. Com a Conta Menor, a instituição permite que os jovens conheçam tanto a movimentação cotidiana do dinheiro quanto aplicações financeiras, incluindo ações negociadas na B3.

Educação financeira começa antes do primeiro salário

O lançamento ocorre em um contexto no qual o acesso aos serviços financeiros não necessariamente significa capacidade de utilizá-los de maneira consciente. No Brasil, a educação financeira ainda é um desafio tanto para adultos quanto para adolescentes.

A 9ª edição do Raio-X do Investidor Brasileiro, pesquisa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), aponta que apenas 21% dos brasileiros já participaram de alguma aula, palestra ou curso de educação financeira ao longo da vida. A idade média do investidor brasileiro é de 43 anos, segundo o levantamento divulgado em 2026.

O quadro também aparece entre os mais jovens. Na avaliação de educação financeira do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2022, divulgada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2024, os estudantes brasileiros de 15 anos obtiveram média de 416 pontos, abaixo da média da organização.

Mais preocupante: 45% dos estudantes brasileiros não alcançaram o nível básico de proficiência financeira, ante 18% na média dos países e economias participantes. Apenas 2% chegaram ao nível mais elevado de conhecimento, contra 11% na média internacional.

O levantamento também identificou uma relação entre conhecimento financeiro e comportamento. No Brasil, estudantes com melhor desempenho eram pelo menos quatro vezes mais propensos a ter poupado em uma conta ou em casa do que aqueles com menor proficiência, mesmo após o controle de características individuais e outros fatores. Os resultados indicam uma associação entre conhecimento e hábitos financeiros, embora não provem que uma conta bancária, isoladamente, produza esse efeito.

A família aparece como parte importante desse processo. Segundo a OCDE, 76% dos estudantes brasileiros disseram conversar com os pais pelo menos uma vez por mês sobre suas decisões de consumo. Os que discutiam esses assuntos com frequência apresentaram desempenho financeiro superior ao daqueles que nunca conversavam sobre o tema.

Nesse sentido, uma conta digital pode funcionar como instrumento de aprendizado quando acompanhada de conversas sobre orçamento, prioridades e poupança. O acesso a investimentos, por sua vez, permite introduzir conceitos como risco, rentabilidade e horizonte de tempo – desde que a experiência não se limite a oferecer produtos financeiros sem orientação.

Crédito cresce entre jovens, mas também acende alerta

A discussão sobre educação financeira ganha relevância diante da velocidade com que os brasileiros entram no mercado de crédito. Segundo o Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central, o número de jovens de 15 a 29 anos com acesso ao crédito passou de 13,7 milhões, em 2016, para 27,6 milhões, em 2024, um crescimento de 101%. No mesmo período, a idade média do primeiro relacionamento com o sistema financeiro caiu de cerca de 35 anos, patamar observado até 2020, para 20 anos em 2024.

A ampliação do acesso, porém, não elimina os riscos associados ao uso do crédito. Em 2024, cerca de 13 milhões de jovens utilizaram o rotativo ou o parcelamento da fatura do cartão. Entre aqueles com acesso ao crédito e renda de até dois salários mínimos, a inadimplência chegou a 17,4%, segundo dados do Banco Central.

Os números ajudam a dimensionar a importância de preparar os jovens para decisões financeiras cada vez mais precoces, com noções de orçamento, juros, consumo e planejamento.

O desafio vai além de abrir uma conta

A Conta Menor chega a um mercado em que serviços digitais tornaram mais simples o acesso a pagamentos e investimentos, mas a formação financeira não avançou necessariamente no mesmo ritmo. A questão, portanto, não é apenas quantas crianças terão uma conta, mas o que aprenderão ao utilizá-la.

Para a XP, o produto representa uma extensão de sua estratégia de relacionamento com investidores, agora desde uma etapa anterior à entrada formal no mercado de trabalho. Para as famílias, pode ser uma oportunidade de transformar decisões cotidianas – gastar, guardar, comparar preços e estabelecer metas – em experiências concretas de aprendizado.

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