O mês de março é oficialmente dedicado ao vermute, uma bebida clássica da coquetelaria mundial criada na Itália por Antonio Carpano. Elaborado à base de vinho e infusionado com ervas, botânicos, raízes e especiarias, o vermute atravessou séculos para se consolidar como uma tradição global. Seja abrindo o paladar como aperitivo ou encerrando a experiência como um digestivo, a bebida prova sua versatilidade ao ser consumida pura, com gelo, cítricos, tônicas ou, claro, como protagonista de grandes clássicos.
E quando se fala em vermute na coquetelaria, é impossível não pensar no Negroni. Conhecido por seu equilíbrio preciso entre amargor, doçura e complexidade aromática, o coquetel tem uma estrutura simples e elegante: partes iguais de gin, bitter e vermute. É justamente essa simplicidade que transforma a bebida em uma verdadeira “tela em branco” para experimentações, onde o vermute tem um papel central na identidade sensorial da taça. Ao trocar o vermute, transforma-se o Negroni: surgem novas camadas de sabor, diferentes sensações de corpo e finalizações exclusivas.
“Com o crescimento do mercado de vermutes, impulsionado tanto por produtores clássicos quanto por iniciativas artesanais, o Negroni passou a ser revisitado sob diversas perspectivas”, conta Tábata Magarão, à frente do Trinca Bar & Vermuteria, primeira vermuteria artesanal do Brasil.
Para a receita do Negroni da casa, o segredo mora na base artesanal. O bar paulistano utiliza um vermute próprio, o Trinca Clássico, uma releitura brasileira que combina 21 botânicos (sendo cinco deles frescos), garantindo frescor e mais complexidade aromática.” O resultado é um vermute que equilibra notas herbais, especiarias e um amargor elegante”, descreve Tábata.
A (polêmica) história do Negroni
A origem do negroni é, até hoje, motivo de debates acalorados, envolvendo o orgulho italiano e francês. A versão mais popular remonta ao início do século 20, na Itália. Segundo registros históricos, o Negroni é uma evolução natural de outros clássicos: o Torino-Milano deu origem ao Milano-Torino (partes iguais de Campari e vermute tinto), que, ao receber um lance de água com gás a pedido de turistas americanos, transformou-se no Americano.
A lenda conta que, em 1919, o Conde Camillo Negroni, um frequentador assíduo do Casoni Bar (mais tarde Caffé Giacosa) em Florença, pediu ao bartender Fosco Scarselli que desse um “toque extra” ao seu Americano habitual. Scarselli substituiu a água com gás por gin, e a combinação logo se tornou o pedido oficial do Conde. Não demorou para que outros clientes começassem a pedir “a bebida do Conde Negroni”, imortalizando o nome do coquetel.
No entanto, essa narrativa romântica é duramente contestada. O Coronel Hector Andres Negroni, estudioso da genealogia da família (que remonta ao século 11), afirma categoricamente que não existiu nenhum Conde Camillo Negroni. Segundo ele e outras evidências históricas, o verdadeiro inventor do coquetel foi o General francês Pascal Oliver Comte de Negroni. Acredita-se que o General, durante a Guerra Franco-Prussiana de 1870, apresentou sua criação original – um coquetel à base de vermute – aos seus oficiais, sendo esta a verdadeira raiz da receita que consumimos hoje.
Independentemente de quem o inventou, o Negroni resistiu ao teste do tempo e se consolidou como uma plataforma de expressão na coquetelaria mundial.
Abaixo, Tábata Magarão ensina a receita clássica do Negroni do Trinca Bar e dá dicas de como dar um twist no preparo em casa:
Receita do Negroni, por Trinca Bar
Ingredientes:
- 30 ml de Gin
- 30 ml de Vermute Trinca Clássico (ou um vermute tinto de excelente qualidade)
- 30 ml de Bitter Italiano Vermelho (como Campari)
- Casca de Laranja Bahia para decorar
Modo de preparo:
- Separe um copo baixo com bastante gelo ou uma pedra de gelo quadrada grande.
- Coloque o gin, o vermute e o bitter em um Mixing Glass.
- Mexa rapidamente por 30 segundos para gelar e diluir levemente os ingredientes.
- Coe a mistura para o copo com gelo.
- Finalize decorando com a casca de laranja Bahia, torcendo-a levemente sobre o copo para liberar os óleos essenciais.
A dica para um “twist”:
Além de escolher um vermute de qualidade, o Negroni abre espaço para personalizações interessantes. Tábata sugere reduzir a quantidade do bitter italiano em 5 ml e adicionar 10 ml de um licor de sabor diferente. Adicionar 10 ml de licor amaretto, por exemplo, traz notas amendoadas e adocicadas, criando uma variação surpreendente e muito equilibrada do clássico.