“Três doses de gin Gordon’s, uma de vodka, meia dose de Kina Lillet. Batido até ficar estupidamente gelado”. O pedido de James Bond na mesa de pôquer do livro Casino Royale (1953) é, indiscutivelmente, a receita de drink mais famosa da cultura pop. Mas ao criar o Vesper Martini para ser a marca registrada do agente 007, o autor Ian Fleming também pariu uma das maiores polêmicas da coquetelaria.
Há quem diga que o Vesper é um “pesadelo” para os puristas da coquetelaria. Primeiro, por unir gin e vodka na mesma taça — uma redundância impensável para um clássico Martini. Segundo, pela exigência do “shaken, not stirred” (batido, não mexido). Agitar um Martini na coqueteleira seria quase um sacrilégio no balcão, pois quebra o gelo, dilui excessivamente a bebida e turva um líquido que deveria ser cristalino.

Apesar das quebras de protocolo, o carisma do espião falou mais alto (especialmente após Daniel Craig pedir a bebida nos cinemas em 2006), e o drinque virou um sucesso pop. O mito diz que a receita foi arquitetada pelo autor durante suas visitas frequentes ao aclamado Dukes Bar, no luxuoso bairro de Mayfair, em Londres. O nome da bebida, claro, foi um tributo à enigmática bond girl Vesper Lynd.
A grande ironia dessa história? O próprio criador se arrependeu da receita. Em uma carta enviada ao Manchester Guardian em 1958, Fleming fez uma confissão inusitada: “Inventei um coquetel para Bond, o qual provei vários meses depois e achei intragável”.
O toque moderno: como deixar o Vesper sedoso
Se o criador não gostou de sua criatura, há quem goste. Coube aos talentos da alta coquetelaria moderna domar a agressividade alcoólica do drinque. Afinal, a bebida perdeu um de seus ingredientes originais (o Kina Lillet não é mais fabricado, sendo substituído hoje pelo Lillet Blanc) e exige precisão para não virar um soco no paladar.
Para Rodolfo Carvalho, chef de bar do descolado Domo, em São Paulo, o segredo da execução perfeita mora na escolha cuidadosa dos destilados e na temperatura extrema. “O Vesper precisa que os ingredientes estejam muito gelados“, diz o bartender. “Para não errar, eu gosto de deixar o gin e a vodka diretamente no congelador antes do preparo e usar uma taça também previamente resfriada”.
Abaixo, ele ensina o passo a passo para executar a receita em casa, com o truque para deixar a mistura aveludada até o último gole.
Vesper Martini, por Rodolfo Carvalho, do Domo
Ingredientes
- 60 ml de Gin
- 20 ml de Vodka
- 10 ml de Lillet Blanc (o substituto moderno do extinto Kina Lillet)
- 1 fatia de casca de limão-siciliano para finalizar
Modo de Preparo
- Coloque todos os líquidos na coqueteleira. Adicione gelo até encher a parte menor do utensílio.
- Momento James Bond: Bata com vontade, sem medir esforços, até sentir a parte externa da coqueteleira congelando nas mãos.
- Faça uma dupla coagem (usando o coador de bar e uma peneira fina) diretamente para uma taça previamente gelada.
- Torça o zest de limão-siciliano sobre a bebida para extrair os óleos essenciais cítricos e perfumar o drink. Passe a casca na borda e mergulhe-a no líquido.
Dicas de especialista para elevar o Vesper Martini:
- A escolha dos destilados: “Eu gosto muito de usar o gin japonês Roku, que é bastante aromático, e a vodka Haku, que é mais leve”, revela Rodolfo. “Isso deixa o Vesper menos seco e menos agressivo no álcool do que se usássemos um London Dry e uma vodka tradicionais. Fica mais sedoso e suave para degustar”.
- Pré-preparo: Antes de começar os trabalhos, já deixe todos os ingredientes bem gelados. Como todo bom martini, Rodolfo já deixa de antemão o gin e a vodka no congelador, assim como a taça em que ele será servido.
- O ritmo da coqueteleira: Ao bater vigorosamente até quase congelar o metal, você não apenas atende ao pedido histórico do agente 007, mas garante uma leve aeração que contribui para que o coquetel fique gelado e agradável do começo ao fim.