Como sexo, drogas e jogos de azar têm ajudado os norte-americanos a enfrentar a Covid

Bem-vindo à era do vício: negócios de cannabis, apostas e conteúdo adulto cresceram durante a pandemia.

Will Yakowicz
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Reprodução/Forbes
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Negócios de cannabis, jogos de azar e a pornografia foram impulsionados com a pandemia

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A pandemia fez com que milhões de pessoas se inclinassem para o bom e velho mau comportamento. Dois anos depois, os negócios nunca estiveram melhores para a cannabis, os jogos de azar e a pornografia – e essa bonança veio para ficar.

Em 13 de março de 2020, tudo mudou para Doug, de 35 anos, gerente de uma empresa de logística da cadeia de suprimentos em Chicago. Disseram que os escritórios dele ficariam fechados até segunda ordem. Então, o mercado de ações despencou, sua conta de aposentadoria afundou, e vários familiares adoeceram com a Covid-19. Pai de quatro filhos que morava em uma casa comprada recentemente, ele estava receoso quanto ao futuro de sua família.

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A taça de vinho que Doug costumava beber todas as noites para descontrair virou uma garrafa inteira. “Meu consumo de álcool passou a ser diário”, ele conta. Ele geralmente complementava com algumas balas de goma com THC. E, com a volta dos eventos esportivos, as apostas o ajudavam a aliviar seu medo de um futuro incerto.

Doug não estava sozinho. Enquanto as ordens de confinamento se espalhavam pelo país em março de 2020, os norte-americanos ficavam chapados, bêbados e recorriam à pornografia para lidar com os muitos medos e ansiedades sintomáticos da pandemia. Em 13 estados, as vendas de bebidas alcoólicas saltaram mais de 10% no primeiro mês de confinamento, enquanto as vendas de vinho aumentaram quase 9%, de acordo com um estudo realizado pela Universidade de Buffalo. O número de cigarros vendidos nos EUA também cresceu em 2020, a primeira vez em 20 anos, segundo o Relatório sobre Cigarros da Comissão Federal de Comércio.

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O Dr. Peter Grinspoon, médico generalista do Hospital Geral de Massachusetts e professor da Faculdade de Medicina de Harvard, observou que, após o início da pandemia, os pacientes estavam se voltando às drogas e ao álcool para “se desligarem da realidade” em maior número do que nos anos anteriores.

“Em um mundo perfeito, quando estamos estressados, fazemos ioga, comemos tofu, praticamos atividade física, conversamos com nosso melhor amigo, mas, na realidade, a maioria das pessoas recorre a algum tipo de substância”, diz Grinspoon, que é especialista em cannabis medicinal há mais de 25 anos. “Não é necessário ser um cientista espacial para entender que, quando as pessoas estão em casa, entediadas e sozinhas, elas vão beber e ficar chapadas.”

Covid em alta, cannabis também

Enquanto a pandemia ceifava, de forma inimaginável, milhares de vidas por dia e paralisava a economia mundial, ela também ajudava a legitimar o setor de maconha legal. Com os confinamentos sendo instituídos no país todo em março de 2020, muitos estados consideraram os dispensários de cannabis “empresas essenciais”, o que significava que podiam ficar abertos juntamente com farmácias, supermercados e lojas de bebidas. As vendas de cannabis no estado de Washington subiram 9% em relação ao mesmo mês de 2019, chegando a US$ 99 milhões, enquanto, na Califórnia, as vendas da erva cresceram 53% em comparação com março de 2019, alcançando US$ 276 milhões. Meses depois, no dia das eleições de 2020, cinco estados aprovaram leis de legalização da maconha. Em termos gerais, o setor de cannabis legal teve um ano de enorme alta em 2020: as vendas legais ultrapassaram US$ 17,5 bilhões, um aumento de 46% em relação a 2019, antes da pandemia.

Como a Covid ataca o sistema respiratório, muitos fumantes de maconha de longa data mudaram para versões comestíveis. De acordo com a Headset, empresa de análise de cannabis com sede em Seattle, as vendas de comestíveis cresceram 54% em seis estados – Califórnia, Colorado, Michigan, Nevada, Oregon e Washington – em 2020.

“Em muitos aspectos, a Covid acelerou o setor de cannabis em 10 anos”, afirma Aaron Morris, cofundador da Wyld, fabricante de comestíveis sediada em Clackamas, Oregon. “Ela o legitimou, de certa forma, como mecanismo de defesa convencional, junto com o álcool.” Para a Wyld, uma das marcas de comestíveis mais vendidas no país, a pandemia colocou a empresa em marcha acelerada. “As vendas viraram uma loucura”, diz Morris. “Era como papel higiênico – os comestíveis não paravam nas prateleiras.”

Morris diz que a pandemia reforçou as vendas da Wyld em 20%, e elas não diminuíram. Segundo ele, as vendas “aumentaram permanentemente”. Quando o novo normal se consolidou, as únicas variações que a Wyld observava nas vendas aconteciam quando saía uma ajuda financeira. “Sempre que o governo enviava cheques, as vendas ficavam anabolizadas por 30 dias”, diz Morris.

Em 2019, a Wyld gerou US$ 25 milhões em vendas e, em 2020, faturou US$ 64 milhões com suas gomas de frutas naturais. Até o fim do ano passado, a empresa atingiu quase US$ 110 milhões em vendas.

Morris está satisfeito com o desempenho da empresa, obviamente, mas não surpreso. “Todo mundo adora cannabis, todo mundo está em casa, você não está tendo contatos sociais, então o que vai fazer em uma terça à noite ou uma sexta à noite?”, pergunta Morris. “Todo mundo simplesmente se divertia.”

Nas alturas

Nos Estados Unidos, as vendas anuais de cannabis atingiram US$ 25 bilhões em 2021, um aumento de 43% em relação a 2020. As vendas na Flórida, onde apenas a maconha medicinal é legal, e as vendas em Illinois, que permite uso médico e adulto, saltaram 70% de 2020 a 2021. Em Massachusetts, as vendas se elevaram 85% no mesmo período.

Apesar do crescimento das versões comestíveis, as vendas de flores de maconha também não desaceleraram. Para Emily Paxhia, cofundadora do fundo de investimento em cannabis Poseidon, o que se destaca para ela nos últimos dois anos é o aumento das vendas antes do lançamento. As vendas conjuntas subiram 47% de abril de 2020 a outubro de 2021 na Califórnia, Colorado, Michigan, Nevada, Oregon e Washington.

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Paxhia acredita que há um quê de niilismo por trás dessa estatística. “Acho que a pandemia encurtou o horizonte de tempo de como vemos e vivemos nossa vida para nos concentrarmos no dia de hoje, de amanhã, e não no que vai acontecer em cinco a 10 anos”, diz ela. “Por que não simplesmente viver agora, e viver bem?”

Apostas contra a Covid

O início da pandemia foi um duro golpe contra o setor de jogos de azar e, à medida que as restrições às viagens se espalhavam pelo mundo, a Covid parecia um lance ruim para a casa. Cassinos de todos os EUA permaneceram fechados por meses devido aos confinamentos. Em Nevada, a meca do jogo do país, a receita bruta dos jogos caiu de US$ 12 bilhões em 2019 para US$ 7,8 bilhões em 2020. No entanto, quando as vacinas ficaram disponíveis e as restrições da Covid diminuíram, os norte-americanos acorreram a Las Vegas e aos cassinos estaduais regionais, já que o jogo se tornou uma maneira de o país se soltar após o auge da pandemia. No fim de 2021, Nevada registrou uma sequência de vitórias de 10 meses, com mais de US$ 1 bilhão em receita mensal de jogos de azar, e um recorde anual de US$ 13,4 bilhões – um aumento de 11,6% em relação aos valores pré-pandemia.

“As pessoas ficaram presas por seis meses a dois anos, dependendo de sua tolerância ao risco”, diz Colin Mansfield, analista que cobre jogos de azar e lazer na Fitch Ratings. “Houve um período em que não havia muito o que fazer em termos de entretenimento, a não ser ir a um cassino. Depois do confinamento, as pessoas queriam sair, se divertir e gastar algum dinheiro.”

Dinheiro em campo

E, como os estados estavam ansiosos por mais receita tributária, muitos aprovaram leis para colocar em ação programas de apostas esportivas móveis. Em 2018, havia oito estados com apostas esportivas legais e, no final de 2021, 31 estados tinham mercados legais, sendo que haviam 18 lançado jogos de azar esportivos móveis.

Nova York, que lançou seu programa de apostas esportivas móveis no começo de janeiro de 2022, superou US$ 1 bilhão em apostas nas duas primeiras semanas a partir da legalização, o dobro do valor que as casas de apostas esportivas da Strip de Las Vegas arrecadaram em dezembro. Até a última semana de fevereiro, os apostadores de Nova York tinham apostado um total de US$ 3,1 bilhões desde o lançamento do programa, o que gerou US$ 204,6 milhões em receita bruta de jogos e US$ 104,3 milhões em receita fiscal.

Mansfield diz que o boom pandêmico dos jogos de azar está longe de acabar. O setor vem crescendo à medida que mais estados legalizam as apostas esportivas, e o mercado mais amplo de cassinos também vem se expandindo. “Não estamos prevendo nenhum recuo forte nas receitas dos jogos de azar”, comenta ele. “As pessoas gostam de apostar. Não acho que isso vá acabar.”

Com o tempo, as apostas passaram de um vício que cidades e estados queriam esconder em embarcações fluviais e longe das grandes cidades a algo a ser colocado no centro dos principais distritos de entretenimento. A combinação da pandemia com a expansão das apostas esportivas móveis levou o jogo para a “boca do povo”, diz Mansfield. “Não é mais possível assistir a uma partida sem ouvir falar de apostas.”

Os jogos de azar podem estar em um período favorável agora, mas pouca gente está pensando nas consequências de longo prazo. Bill Krackomberger, um veterano apostador profissional em esportes, cresceu nas bordas mais decadentes do setor, em meio a agiotas e casas de apostas clandestinas. A legalização das apostas esportivas é positiva, sem dúvida, mas Krackomberger se sente apreensivo com a rapidez com que o passatempo viciante se popularizou.

“Veremos as consequências em cerca de 10 anos, e não apenas entre os degenerados comuns”, afirma Krackomberger. “Tenho falado com médicos, advogados, profissionais, gente de Wall Street, você vai ver – não vai dar para entrar em uma reunião dos Apostadores Anônimos.”

Crescimento pornográfico

Quando a pandemia chegou, em março de 2020, Maya Morena, uma artista de cinema adulto e profissional do sexo de Nova York, viu que precisaria parar de se encontrar com os clientes. Os respeitáveis e educados sumiram, e parecia que os únicos dispostos a pagar por sexo e correr o risco de pegar Covid eram os da “ralé”. Então, Morena, assim como milhões de outros trabalhadores dos EUA, começou a fazer negócios online – passou a tratar sua página no OnlyFans como um trabalho em tempo integral.

Até o final daquele primeiro mês, Morena diz que ganhou US$ 4,8 mil produzindo e vendendo vídeos eróticos na plataforma de streaming baseada no Reino Unido, mais conhecida como a empresa de tecnologia bilionária que a pornografia desenvolveu. Em janeiro de 2021, Morena, que é originária de Honduras, estava ganhando US$ 6 mil por mês no OnlyFans. À medida que a pandemia se prolongava e ela anunciava sua página e recrutava novos clientes, ela viu seu negócio explodir de novo. Em setembro do ano passado, ela chegou a US$ 12 mil mensais.

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É claro que a ideia de que qualquer um pode criar uma página no OnlyFans e começar a ganhar dinheiro mostrando um pouco de pele é mentira, explica Morena. É necessário muito trabalho árduo. O número de usuários pagantes e criadores de conteúdo que estão entrando em plataformas de streaming para adultos, como OnlyFans, FanCentro, IsMyGirl, ManyVids e outras, vem explodindo, mas só os criadores mais dedicados conseguem ganhar a vida com isso. “É uma economia em expansão que tem uma concorrência implacável”, comenta Morena.

No caso do OnlyFans, a pandemia ajudou-o a se tornar uma das maiores plataformas de rede social aparentemente da noite para o dia, com mais de 180 milhões de usuários e mais de 2 milhões de criadores de conteúdo que, em conjunto, ganharam US$ 5 bilhões vendendo assinaturas de conteúdo. Em 2019, ele contava com 348 mil criadores e 13,5 milhões de usuários. Em 2020, o OnlyFans aumentou a receita em 540%, atingindo US$ 400 milhões.

A popularidade do OnlyFans, que vem atraindo um grupo diversificado de criadores, de um ex-pastor a estrelas pornôs como Sophie Dee e celebridades como Cardi B, deu origem a toda uma nova economia de streaming para adultos.

Ambição nua

Evan Seinfeld, nascido no Brooklyn e primo em segundo grau do comediante Jerry Seinfeld, lançou a plataforma de conteúdo adulto online IsMyGirl em 2017 e diz que a pandemia turbinou seus negócios. Em 2019, Seinfeld tinha em sua plataforma 500 mil usuários e 8 mil criadores. Até o final de 2020, 25 mil criadores haviam se inscrito e 1,5 milhão de usuários haviam aderido. Hoje, o site conta com 2,5 milhões de usuários e 50 mil criadores, que, coletivamente, ganham milhões de dólares por mês.

“Os negócios de todos estão crescendo e bombando”, diz Seinfeld. “Quando as pessoas estão sozinhas em casa, elas anseiam por estímulos, por excitação sexual.”

Segundo ele, embora um grande número de artistas e profissionais do sexo possa ter entrado em um site por desespero, muitos acabaram se dando conta de que vender conteúdo erótico para pessoas solitárias presas em casa era um negócio sustentável.

Seinfeld acrescenta: “Muita gente precisou de uma pandemia para perceber que quem não paga as suas contas não tem o direito de opinar sobre como você ganha a vida”.

Ou como aproveita a vida.

Dois anos após o início da pandemia, Doug, de Chicago, está melhor financeiramente – nenhum outro setor esteve mais em demanda do que o de logística da cadeia de suprimentos –, mas ele manteve alguns de seus novos vícios, que ele descreve como “confortos”. Antes da Covid-19, ele estava tentando levar uma vida mais saudável e moderar seu consumo de comida, drogas e álcool. Mas sua perspectiva mudou: a felicidade, e não a moderação, faz parte de sua nova abordagem.

“Estou gostando da confortabilidade da minha vida”, diz Doug. “Tem alguns poréns? Tem. Mas não vamos viver para sempre.”

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