De repente, você tem uma discussão incontornável com seu melhor amigo e decide se afastar. Ou, de uma hora para outra, nota que você e seu melhor amigo ou amiga estão seguindo em direções opostas e que já não há mais tantas afinidades. Você, então, vai se afastando dele ou ele de você. Se você já passou por situações como essas, conhece bem os sentimentos que elas despertam: pesar, tristeza profunda, mal-estar e até raiva.
Incrivelmente, o término de uma amizade nunca ganhou muita atenção da sociedade e da cultura. Filmes e livros sobre o fim de uma relação amorosa existem aos montes, mas pouco se fala sobre o fim de um relacionamento de amizade. Acontece que cultivamos alguns amigos que nos acompanham pela vida por mais tempo até que uma relação amorosa, compartilhando conosco, muitas vezes, nossos segredos mais íntimos, algo que é relativamente comum esconder de um parceiro amoroso.
Eu insisto: amigos de redes sociais não são amigos; até porque o que se costuma apresentar nas redes é um recorte bem-sucedido da vida e não a vida como ela é. Amigos são aqueles em que encontramos um porto seguro para confidenciar nossos sonhos e tristezas. São aqueles que, muitas vezes, nos colocam frente a dura realidade, quando a fantasiamos demais. São os que nos ajudam a voltar para o trilho quando descarrilhamos, nos incentivam e, sim, nos criticam quando fazemos bobagens. São aqueles que estão ao nosso lado testemunhando a nossa história e, justamente por causa disso, são referências importantes da forma como nos enxergamos.
Não por acaso o rompimento dessa relação pode gerar impacto emocional semelhante ao de o fim de um casamento ou namoro longevo, podendo levar inclusive a quadros depressivos, em quem já tem propensão a desenvolvê-lo. Trata-se de um luto, afinal de contas. E um luto solitário. Diferentemente do que acontece no rompimento de uma relação amorosa, socialmente reconhecido como uma fase complicada e dolorida e que desperta o cuidado pelas redes de apoio, o fim de uma amizade, penso, não recebe o mesmo reconhecimento, e, muitas vezes, a dupla que se separou vive esse luto sozinha, sem o apoio de seus entes queridos.
O processo de elaboração desse rompimento é de alguma forma parecido com o da perda de um ente querido. Ou seja, nos coloca frente a dor. Permitir-se viver o sentimento de tristeza e/ou o de raiva e admitir que dói é reconhecer o quanto aquela pessoa foi importante em nossa vida.
Busque ativamente a sua rede de apoio. Nessas horas, ter um ombro para deitar traz conforto e ajuda a nos dar a perspectiva de que não estamos sós.
Esse pode ser um ótimo momento para refletir sobre o que passou. Se você e seu amigo se afastaram porque não encontram mais pontos em comum um no outro, pode ser um bom momento para pensar nas suas próprias transformações e que se por um lado elas eventualmente vão afastá-lo de alguém, podem aproximá-lo de outras pessoas.
Agora, se o que afastou vocês foi algo mais sério, como uma discussão ou traição, pode ser uma boa hora de pensar no que levou vocês a isso. Será que realmente a situação é incontornável ou ainda é possível resgatar algo? Examinar o passado pode ajudar a não repeti-lo no futuro.
A dor do fim de uma amizade é real, mas não precisa ser o ponto final. Ao se dar a chance de viver esse luta e usar essa experiência para se conhecer melhor, você se prepara para construir laços ainda mais verdadeiros no futuro.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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