Até não muito tempo atrás, saúde digital dizia respeito quase exclusivamente ao tempo que cada um de nós passava em frente às telas. Hoje, o que a ciência vem mostrando é que o problema não é apenas quanto usamos a tecnologia, mas como, quando e com que intenção ela entra na nossa vida.
Usar as telas para aprender algo novo ou para construir laços significativos com outras pessoas tende a ser positivo. Já o uso impulsivo, fragmentado e automático — frequentemente associado à navegação nas redes sociais — aumenta o risco de estresse, ansiedade e esgotamento.
É por isso que especialistas passaram a falar em equilíbrio digital, e não mais em detox digital. Vivemos na era da hiperconexão. É pouco realista imaginar um retorno a uma vida livre das telas. O desafio, portanto, não é abandonar de vez a tecnologia, mas aprender a usá-las de forma consciente”.
Como colocar isso em prática?
- Crie zonas livres de tecnologia
Que tal você guardar o celular na bolsa ou no bolso quando for encontrar os amigos e fazer as refeições com a família? E deixar o celular fora do quarto? Estudos mostram que preservar espaços livres de tecnologia melhora a qualidade do sono, estimula a troca e a presença, além de estar associado à maior satisfação com a vida.
- Procure reduzir a fragmentação da atenção
Múltiplos estímulos, como os que diariamente estamos expostos nas redes sociais, fragmentam a atenção. No longo prazo, isso afeta a capacidade de reter informações — o que tende a prejudicar processos de memória —, bem como a capacidade de manter a concentração de forma sustentada. Isso talvez explique um crescimento das queixas sobre problemas com a atenção. Maneiras de lidar com isso são silenciar as notificações e avisos. Isso diminui a sobrecarga cognitiva.
Que papel as telas têm na sua vida?
Muitas pessoas recorrem às telas para aliviar a solidão, o tédio, a tristeza. É parecido com o uso que algumas pessoas fazem da comida, do álcool, das drogas. Um passo importante para um uso mais saudável das telas é identificar os motivos emocionais que se escondem atrás do uso de redes sociais.
Educação digital é tudo
Educação digital é um conjunto de atitudes que podemos ter no sentido de conseguirmos habitar o ambiente digital sem ficar doentes. Vai desde aprender a estabelecer limites claros, como fazer pausas intencionais, até separar trabalho e vida pessoal. A ideia é transformar o uso automático em escolha.
Equilíbrio digital não diz respeito a bater metas rígidas de horas longe das telas, mas a um ajuste contínuo. Haverá fases em que estaremos mais conectados e outras mais afastados delas. Talvez a pergunta mais importante seja: a tecnologia está trabalhando a meu favor ou está ocupando um espaço maior do que deveria na minha vida?
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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