A BYD quer transformar Camaçari, na Bahia, em seu principal polo automotivo nas Américas – e na maior linha de montagem de carros do Brasil. Atualmente, esse título é da Stellantis, com a fábrica da Fiat em Betim, Minas Gerais. A chinesa atualizou, na quinta-feira (16), o cronograma do complexo industrial baiano, onde já monta os modelos Dolphin Mini, King e Song Pro desde outubro de 2025, e prepara uma nova fase de nacionalização da operação.
Neste momento, a unidade funciona no regime SKD, em que os veículos chegam semidesmontados ao país e passam pela etapa final de montagem no Brasil. Por isso, a fábrica ainda monta carros, mas não realiza todo o processo industrial completo. A mudança deve começar em agosto, quando a BYD pretende iniciar uma fase experimental de produção.
A virada industrial será acompanhada pela expansão da estrutura física. Até o fim de 2026, o complexo deve contar com estamparia, soldagem e pintura, três áreas centrais para elevar o grau de nacionalização dos veículos. Ao todo, serão 17 unidades operacionais. Forbes Brasil esteve na unidade na manhã de quinta-feira e pode constatar que há um avanço sifnificativo nas obras em relação ao final do ano passado.
O movimento é parte de uma ambição maior. Com 4,65 milhões de metros quadrados, o equivalente a 645 campos de futebol, o complexo de Camaçari é o maior da BYD fora da China. A capacidade inicial é de 150 mil veículos por ano, com possibilidade de chegar a 300 mil em uma segunda etapa. Quando o projeto estiver completo, a meta é alcançar até 600 mil veículos por ano – valor que superaria em 100 mil a capacidade atual da fábrica da Fiat.
BYD já montou 100 mil carros em Camaçari
A atualização do cronograma veio junto de um marco simbólico. Em nove meses de operação, a BYD chegou a 100 mil veículos montados em Camaçari. O carro de número 100 mil foi um Dolphin Mini, modelo elétrico que lidera o varejo há cinco meses consecutivos e já soma mais de 35 mil unidades vendidas neste ano.
Além do Dolphin Mini, a linha baiana também monta o sedã híbrido King e o SUV híbrido Song Pro. A escolha desses três modelos mostra como a operação brasileira combina volume, eletrificação e modelos que já ganharam relevância comercial no mercado nacional.
O crescimento também aparece no quadro de funcionários. A unidade chegou a 5,5 mil colaboradores diretos. A fábrica é resultado de um investimento de R$ 5,5 bilhões e, em plena capacidade, deve contribuir para a criação de 20 mil empregos diretos e indiretos. Esse valor bilionário já foi totalmente integralizado, segundo a montadora.
“O investimento compreende todo o complexo e a verticalização da cadeia produtiva. Os prédios já existentes serão destinados à fabricação de peças, partes e componentes, com o objetivo de ter cada vez mais conteúdo local”, disse Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD do Brasil.

Denza pode abrir frente premium
A expansão da BYD na Bahia também levanta uma questão estratégica para o futuro: o papel da Denza, marca premium do grupo, dentro do complexo de Camaçari. Por enquanto, não há planos confirmados para montar carros da Denza no Brasil. Ainda assim, essa possibilidade existe no radar.
Um dos modelos que poderia entrar nessa discussão é o Denza B5. O SUV usa uma plataforma similar à picape BYD Shark, o que tornaria tecnicamente viável uma montagem local. Caso avance, Camaçari poderia se tornar não apenas o centro de carros eletrificados de maior volume da BYD no país, mas também um polo industrial para veículos premium.
O desempenho recente da Denza ajuda a explicar por que essa possibilidade ganhou peso. Em junho, o Denza B5 foi o veículo premium mais vendido do Brasil, com 566 unidades emplacadas, segundo dados compilados pela K.Lume Consultoria. Foi a primeira vez que um modelo chinês liderou o ranking mensal entre os carros premium no país.
O resultado mexe com um segmento tradicionalmente dominado por marcas alemãs e fabricantes consolidadas no mercado de alto valor agregado. A BMW seguiu na liderança entre as marcas premium em junho, com mais de 1.300 unidades emplacadas, mas o desempenho do B5 indicou que a Denza passou a disputar espaço de forma mais direta na faixa superior do mercado.
Camaçari vira base da BYD nas Américas
A estratégia da BYD em Camaçari vai além da montagem de carros. A empresa quer usar a Bahia como base industrial para sustentar seu crescimento nas Américas e ampliar a cadeia produtiva local. A ideia central é tornar a planta em um hub de exportação de carros para a região.
A companhia já tem mais de dez anos de atuação no Brasil e mantém outras operações no país, como fábricas de módulos fotovoltaicos e chassis de ônibus elétricos em Campinas, baterias em Manaus e veículos de passeio eletrificados em Camaçari. Também atua em armazenamento de energia e em soluções de transporte sobre trilhos, incluindo o monotrilho da Linha 17-Ouro do Metrô de São Paulo.
No setor automotivo, porém, Camaçari é o projeto mais ambicioso. A operação nasce em uma antiga região industrial do país e tenta reposicionar a Bahia dentro da nova fase da indústria automotiva, agora marcada por eletrificação, escala e nacionalização gradual.