O filme Homem com H, que traz a história do cantor Ney Matogrosso, talvez seja um dos grandes exemplos recentes da questão da vulnerabilidade e de como é possível dar a volta por cima. A obra inicialmente conta a história do menino/adolescente sensível que sofria a violência e o preconceito do pai por não ser o “macho padrão”. A jornada do jovem Ney, que poderia ter se tornado refém do preconceito e da dor, mostra justamente o contrário: ele transforma sua sensibilidade em força criativa e sua dor em arte.
O que a história desse cantor nos mostra é que costumamos admirar quem assume a sua vulnerabilidade e encontra maneiras de driblá-la ou transformá-la em potência. Vulnerabilidade é daquelas palavras que carregam má fama. Por algum motivo, ela é frequentemente associada à fraqueza de espírito. Talvez por isso uma parte considerável de nós tente escondê-la a todo custo.
É muito comum, especialmente entre pessoas em cargo de liderança, a tentativa de mostrar-se fortes e infalíveis.
Essa espécie de armadura que elas colocam em si transmite a falsa sensação de que nada as atinge – quando sabemos que isso está longe de ser verdade. Não por acaso, 1 a cada 10 líderes brasileiros apresenta quadros de depressão, segundo pesquisas. Os números podem ser ainda maiores, visto que muitos se envergonham de relatar o problema ou simplesmente não buscam ajuda.
Vivemos em um mundo que privilegia a resiliência. É claro que ela é importante, mas não a qualquer custo. O que quero dizer com isso é que não podemos transformá-la em propósito de vida, porque corremos o risco de nos tornar como o boneco “joão-bobo”: aquele que leva pancadas sem parar e retorna à posição inicial sem tempo para elaborar suas dores.
Revelar nossas vulnerabilidades pode ser libertador. Imagine esta situação: o seu chefe pede que você lidere um projeto. Ao analisar a proposta, você se dá conta que não conseguirá tocá-lo sozinho ou que ele é mais desafiador do que imaginava. Ao invés de fingir que está tudo bem – o que cobra um preço enorme da sua saúde mental – dizer à liderança que precisa de apoio ou até reconhecer que não é a pessoa ideal para comandar o projeto não apenas pode evitar sobrecarga, estresse e ansiedade, mas também abrir espaço para colaboração e aprendizado.
Compartilhar fragilidades também ajuda a quebrar estigmas relacionados à saúde mental. Mais do que isso, favorece a construção de vínculos mais fortes e íntimos com colegas de trabalho, amigos e familiares, pois abre espaço para a empatia e o cuidado mútuo.
Ao expor nossas vulnerabilidades, descobrimos pontos em comum com outras pessoas. Você certamente já viveu a experiência de contar uma dificuldade pessoal e, ao fazê-lo, perceber que o outro já passou por algo semelhante. Esse encontro revela que não estamos sós e, em vez de nos enfraquecer, pode nos fortalecer.
Assim como a história de Ney Matogrosso em Homem com H, nossas vulnerabilidades não precisam ser sentenças de vida. Ao invés de ser refém do medo e da vergonha, ele transformou em arte e em libertação. A sua vulnerabilidade também é um convite para você abrir as portas para conexões mais verdadeiras, projetos mais colaborativos, para uma vida mais corajosa o ou que mais você desejar.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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