Se você entrar em quase qualquer bar do planeta hoje e pedir uma Margarita, provavelmente não estará sozinho. De acordo com a pesquisa anual da Drinks International, em 2026 o mexicano é o segundo coquetel mais vendido do mundo, atrás apenas do Negroni. Mas o que faz dessa combinação de tequila, limão e licor de laranja um sucesso tão duradouro?
Para Renato Perito, dono do paulistano Cascasse il Mondo Bar, o encanto do drink mora justamente na imperfeição. “Honestamente, a Margarita é um coquetel desequilibrado e até mesmo sua composição é suspeita (agave, limão e laranja)”, brinca. “Mas como muitas coisas na vida, o errado que dá certo às vezes é mais interessante que o certo que deu certo.”
Na prática, porém, existe uma espécie de fórmula para fazer esse “errado” funcionar. O coquetel deve ser muito gelado, seco, ligeiramente salgado e ter força suficiente para deixar clara a presença da tequila. “Uma boa Margarita vai trazer notas vegetais, terrosas, florais”, explica Perito. “Alta acidez, textura fina e ligeira, e corpo forte de boa graduação alcoólica, com pouco dulçor”.
O resultado é um drink elétrico e vibrante, servido bem gelado, mas, nas palavras do especialista, “caliente ao cuerpo”.
Uma origem cercada por versões
Se a receita original parece simples, cravar uma origem certeira da Margarita é bem mais complicado. Histórias diferentes apontam para bartenders, socialites e artistas em diferentes momentos entre o México e os Estados Unidos. Há quem atribua sua criação a Carlos “Danny” Herrera, em Tijuana, em 1938; outra versão envolve a socialite texana Margarita Sames, em Acapulco, uma década depois. Rita Hayworth, cujo nome de nascimento era Margarita Cansino, também aparece em uma das lendas.
Nenhuma delas, porém, foi definitivamente comprovada. Para historiadores da coquetelaria, uma explicação mais provável é menos cinematográfica: a Margarita teria evoluído da família dos Daisies, coquetéis que combinavam diferentes tipos de destilado com um suco de fruta cítrica e xarope ou licor. Com o passar dos anos, a tequila passou a ocupar o centro da receita, enquanto o licor de laranja completou a fórmula que se tornaria clássica.
O nome também parece reforçar essa hipótese. Margarita é a palavra em espanhol para daisy. Receitas de coquetéis semelhantes começaram a aparecer em registros americanos na década de 1930, e a combinação de tequila, limão e licor de laranja foi se consolidando até chegar à forma que hoje conhecemos.
Seja qual for a origem, a fórmula atravessou décadas graças à sua versatilidade. A trinca básica de ingredientes é simples o suficiente para firmar a bebida como um clássico, mas aberta o bastante para inspirar inúmeras releituras – das opções frozen às criações picantes, passando por frutas, ervas e diferentes estilos de tequila.
Para Perito, no entanto, o segredo é não complicar. A seguir, ele ensina o passo a passo e os truques infalíveis para reproduzir o coquetel em casa.

A receita clássica da Margarita, por Renato Perito
Ingredientes
- 50 ml de tequila prata, 100% agave
- 25 ml de licor de laranja
- 25 ml de suco de limão
- Sal grosso triturado ou flor de sal
- Gelo
No Cascasse il Mondo, Perito utiliza um mix de 70% de limão-taiti e 30% de limão-siciliano. Para a tequila, a recomendação é usar uma versão prata, sem envelhecimento, e 100% agave, para preservar o caráter vegetal e terroso do destilado. No caso do licor de laranja, o expert cita duas possibilidades: o clássico Cointreau, ou o San Basile, para uma versão nacional. E nunca sal fino.
Modo de preparo
- Prepare a taça coupe, passando a polpa de meio limão-taiti apenas na parte externa da borda. Mergulhe-a no sal triturado até formar uma camada uniforme.
- Leve a taça ao freezer por cerca de 10 minutos.
- Em uma coqueteleira, coloque a tequila, o licor de laranja e o suco de limão.
- Acrescente cerca de 200 g de gelo e bata vigorosamente por aproximadamente 10 segundos.
- Faça dupla coagem: primeiro com um strainer e depois com uma peneira fina, para retirar pequenos fragmentos de gelo.
- Sirva na taça previamente gelada.
Para variar: ideias de Margarita
Quem gosta de picância pode transformar a receita em uma Spiced Margarita, acrescentando algumas gotas de tintura de pimenta. Perito não recomenda bater pimenta fresca junto ao coquetel, já que ela pode trazer amargor vegetal, nem usar molhos prontos, que costumam conter ingredientes como vinagre.
Outra opção é a Smash Margarita, preparada com folhas frescas. O coentro é o favorito do barman. Para quem prefere uma bebida menos potente, a Margarita on the Rocks vai para um copo baixo, com bastante gelo para diluir, mas ainda com a tradicional borda de sal.
E a melhor hora para beber qualquer Margarita? Perito não hesita: “As melhores ocasiões envolvem tardes ensolaradas, segundas intenções ou quando queremos subir o BPM da noite.”