Quase toda semana, aparece uma pessoa em meu consultório se queixando de que foi ‘deixada no vácuo’, fenômeno que ficou conhecido como ghosting ou desaparecimento repentino. Embora o termo não seja novo, ele ganhou fama com o crescimento dos relacionamentos pelos meios digitais.
Essa prática, que consiste em terminar um relacionamento de forma abrupta e sem explicações, tem levado muita gente a buscar ajuda de profissionais de saúde mental (psiquiatras, psicólogos etc.) com queixas que vão desde depressão até problemas com sono, autoestima, ansiedade.
Não deixa de ser irônico pensar que em um mundo que usa as tecnologias para abrir espaço para comunicação 24 horas e que, portanto, poderiam ser utilizadas facilmente, o ghosting seja usado para descartar uma pessoa da nossa vida (atenção: até amigos) sem medir as consequências emocionais desse ato.
Por que será que desaparecer sem dar explicação anda mais fácil do que ser honesto com ela? Será que ter uma conversa, por mais desconfortável que seja para ambas as pessoas, é pior do que transferir todo o peso para quem foi ignorado? Acredito que aplicativos tornam mais fácil a muitas pessoas tratarem as suas relações como se elas fossem descartáveis, como se no outro lado desse vínculo não houvesse alguém de verdade.
Incrivelmente, o ghosting ainda é uma prática muito usada. E se engana quem pensa que ela é mais utilizada por homens do que por mulheres. Uma pesquisa feita por uma parceria entre a Forbes e a OnePoll nos EUA, que ouviu 5 mil pessoas, mostra que homens e mulheres usam esse tipo de estratégia quase igualmente (44% contra 47%).
Para muita gente, viver isso pode ser bastante traumático, com todo o impacto emocional que um trauma traz a vida de alguém: desespero, medo de que tenha acontecido algo de verdade a quem você gostava, sensação de culpa – porque, claro, muitos se culpabilizam por esse comportamento. Isso traz importantes consequências ao bem viver e, portanto, à saúde mental.
Como lidar com isso?
1. O ghosting diz sobre a outra pessoa, e não sobre você
Sumir do mapa, sem considerar os sentimentos de quem fica, diz muito mais sobre essa pessoa do que sobre você. Vivemos em uma era em que parece que precisamos sempre repetir óbvio, e um desses pontos é: quando se conhece alguém, fazemos uma aposta. Claro que, ao longo do caminho, ou mesmo muito rapidamente, podemos constatar que não há muitas afinidades com aquele que ‘escolhemos’. E tudo bem. Por mais dolorido que isso possa ser para ambos, uma conversa para esclarecer isso é sempre a forma mais adulta, honesta e respeitosa de finalizar uma relação.
2. Pratique o autocuidado
Ser ‘deixado no vácuo’ é algo extremamente doloroso e vai exigir de você um cuidado ainda mais atento a si mesmo. Buscar ajuda de um terapeuta ou dos amigos e permitir-se ser acolhido é um grande ato de autocuidado.
3. Use essa oportunidade para estabelecer novos limites
Essa experiência pode servir para que inicie uma futura relação com combinados que funcionam e não funcionam a você. Deixar as coisas claras desde o início pode ajudar você a ver quem é capaz de respeitá-lo e a seus limites.
*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.
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