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Quando a Busca Pela “Melhor Versão de Si Mesmo” Deixa de Ser Saudável

A busca incessante por desempenho e perfeição pode levar à exaustão e ao adoecimento emocional

3 min

Se você passa algum tempo nas redes sociais — e eu tenho certeza de que passa —, certamente se depara com legendas e vídeos que não só falam sobre a importância de buscarmos a “melhor versão” de nós mesmos, como trazem dicas do que seria necessário fazer para chegar lá. O horizonte é sempre a ideia de sucesso, felicidade  e realização pessoal, algo que todos, de alguma forma, buscamos. 

O problema é que muitas pessoas têm adoecido nessa trajetória. E a pergunta que vale nos fazermos é: em que momento esse ideal deixou de ser inspiração e passou a nos conduzir a um estado de permanente frustração e cansaço?

Vivemos em um mundo que glorifica a performance e o desempenho. É preciso ser mais produtivo, mais focado, mais saudável, mais equilibrado, mais fitness, mais feliz. O resultado é o que eu vejo semanalmente na minha clínica: pessoas adoecidas, que se culpam por não conseguirem atingir esse ideal —  um ideal que, na prática, é inalcançável. Ou pessoas que até chegam à meta a que se propuseram, mas logo sentem a necessidade de dobrá-la. É como se nada fosse suficiente. 

Temos visto isso com frequência — apenas para citar um exemplo — no uso das chamadas “canetas emagrecedoras”. Chegar a um peso-referência considerado saudável muitas vezes não basta. Na busca por uma “melhor versão”, muitas mulheres têm atingido pesos que, além de serem difíceis de sustentar, podem trazer riscos à saúde.

Do ponto de vista da saúde mental, isso não é trivial. Estudos mostram que a busca incessante por perfeição e excelência está ligada a maior risco de episódios de ansiedade, depressão e até burnout.

É o chamado “paradoxo do bem-estar”: com o olhar sempre voltado para o que ainda falta melhorar, perde-se a capacidade de reconhecer conquistas e até necessidades básicas, como o descanso. E, isso, claro, mina a saúde mental.

Esse paradoxo traz uma consequência importante: quanto mais alguém se sente pressionado a ser sua melhor versão, menos espaço sobra para ser humano. Somos imperfeitos, temos limites, falhamos — isso é o que eu chamo de experiência do viver.

Não há nada errado com a ideia de melhorar ou evoluir. Mas talvez seja apenas preciso redefinir essa ideia para torná-la mais saudável. Será que, em vez de perguntar “como posso me tornar a minha melhor versão?”, seria mais útil perguntar “o que eu preciso agora para estar bem?” Às vezes, a melhor versão de si mesmo não é a mais produtiva — é a que consegue viver com mais gentileza e menos cobrança.

*Dr. Arthur Guerra é professor da Faculdade de Medicina da USP, da Faculdade de Medicina do ABC e cofundador da Caliandra Saúde Mental.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da Forbes Brasil e de seus editores.

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