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Os Dois Fatores Que Farão o Brasileiro Investir Mais no Exterior, Segundo o CEO da Nomad

Companhia avalia que aumento de consultores em detrimento de assessores "elimina conflitos de interesses" e impulsiona diversificação

9 min

Para Lucas Vargas, CEO da Nomad, há dois grandes movimentos que estão em curso e tem impulsionado o aumento de diversificação por parte dos brasileiros — que, por sua vez, investem menos no exterior do que comparado à base de investidores de outros países, incluindo economias emergentes.

Em entrevista à Forbes, Vargas conta que são movimentos “de cauda longa” e que devem seguir se perpetuando por anos — sendo um relativo à tecnologia e outro relativo à regulação.

A gestão entende que, apesar do amadurecimento dos investidores na última meia década, tudo “ainda está no começo”. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), são R$ 8,5 trilhões em investimentos somando alta renda, varejo tradicional e varejo private, sendo que mais de 90% do varejo concentra seu patrimônio no Brasil.

A Nomad vê uma alocação no exterior saindo de menos de 10% para algo entre 25% e um terço do portfólio.

“O primeiro desses movimentos é muito ditado por regulação e governo. Trata-se da mudança que determina como os intermediários — consultores, assessores e planejadores financeiros — precisam se comportar e se comunicar, os tipos de produtos que podem oferecer e a monetização desses players e dos diferentes serviços”, comenta.

Para o CEO e co-fundador da Nomad, essa mundança ocorre no Brasil tal como ocorreu em outros mercados anteriormente. Isso passa pela transição dos profissionais do mercado, que eram majoritariamente assessores, enquanto agora há uma ascensão do modelo de advisory com taxas fixas (fee fixo) que privilegia os consultores de investimentos.,

“Os bancos centrais e as entidades que regulam os mercados conversam e buscam boas práticas. Dessa forma, eles evoluem em janelas, por vezes separadas, mas com aprendizados comuns.”

Esse movimento ocorreu, nos EUA, entre 2018 e 2019, quando ocorreram períodos de “mudanças mais intensas” na regulação dos intermediários.

Assim, em linhas gerais, a tese da Nomad é de que o modelo de advisory de investimentos pautado em taxas fixas e com consultores em detrimento de assssores tende a “eliminar os conflitos existentes, quaisquer que sejam”.

Em última instância, isso favore novos produtos que não têm uma estratégia de incentivo ou de marketing de distribuição, e que antes tinham mais desafios para caírem nas graças dos investidores pessoa física.

“Quando você elimina o conflito de quem tem uma grande influência na decisão dessa alocação, você facilita a adoção. Na verdade, você elimina uma trava que, por vezes, existe. E isso parece estar avançando bem no Brasil.”

O salto tecnológico

O segundo movimento descrito por Lucas é relativo aos ciclos de tecnologia e inovação, com uma distribuição mais ampla dos produtos por parte da indústria como um todo.

“É um pouco contraintuitivo o que quero dizer, mas, à medida que os diferentes bancos passarem a oferecer também essa possibilidade e promoverem a possibilidade de investir lá fora, haverá uma onda de maior educação, maior conforto e busca pelas melhores soluções”, avalia.

“Aí você pode perguntar: ‘Lucas, então as pessoas vão investir no banco a partir do momento em que ele passar a oferecer essa possibilidade?’ Não necessariamente. Algumas certamente vão, mas o mercado se expande de forma geral e alguns dos clientes desses bancos, que também não têm acesso, vão buscar melhores produtos e melhores soluções e podem vir para a Nomad”, conclui.

O primeiro bilhão

A companhia deve alcançar a marca de R$ 1 bilhão em receita recorrente anualizada (ARR) “em algum momento até o fim deste ano”, segundo a gestão.

Após cerca de um ano e meio do seu breakeven e com um mix de produtos mais diversificado, a visão é de que a meta é cada vez mais plausível e menos sensível às oscilações do câmbio.

Na prática, a Nomad continua uma companhia amplamente conhecida pelos investimentos no exterior, mas também aumenta seu leque de produtos no mercado doméstico. No entanto, a companhia segue com o propósito de aumentar a diversificação da carteira de investimentos do investidor brasileiro.

Com mais licenças no Brasil e nos EUA e a ampliação dos serviços de consultoria e wealth management, a gestão prevê um crescimento em ambas as verticais.

“Já superamos R$ 750 milhões de receita anualizada neste ano e, sim, existe uma perspectiva de até o final do ano ultrapassar ou pelo menos alcançar R$ 1 bilhão de receita anualizada. Agora, a gente trabalha com um produto que é parte em reais, parte em dólares. Então, há algumas dinâmicas cíclicas e anticíclicas que, dependendo do campo, podemos ter algum aumento de volume, ou de engajamento, mas não necessariamente de receita, por motivos óbvios”, comenta Vargas.

“Dito isso, esse patamar de R$ 1 bilhão é esperado para algum momento até o final do ano. Esse é um desafio que a gente tem se proposto a fazer e os mercados nos quais a gente atua seguem em expansão”, completa.

Indagado sobre onde vê a companhia em um horizonte de cinco a dez anos, Lucas Vargas espera uma última linha do balanço com o mesmo número — mas em moeda diferente.

“Em cinco anos, nos vemos não com receita de R$ 1 bilhão, mas de US$ 1 bilhão.”

Em fevereiro do ano de 2025, a companhia atingiu R$ 500 milhões em ARR, marcando seu primeiro breakeven em uma pequena geração de caixa.

Depois disso, queimou caixa em alguns meses, mas a gestão atesta que em todos os meses deste ano até então, “sem exceção”, a companhia tem tido tanto geração de caixa quanto uma operação que é lucrativa.

Os números internos da empresa apontam para mais de R$ 8 bilhões em ativos dos clientes sob custódia (AuC) na plataforma de investimentos.

Em 2025, a companhia fechou o ano com 3,8 milhões de clientes no total, dos quais metade são considerados ativos — engajados na plataforma e com movimentações financeiras. Na média, o crescimento tem sido de 100 mil clientes ao mês nos últimos meses.

Com ganhos de licenças nos últimos anos, a empresa também mira aumentar o leque de produtos disponíveis aos clientes.

Já há na prateleira produtos de equity e renda fixa, embora de uma forma mais seleta — com opções que vão de ações, ETFs e REITs a CDBs, bonds e treasuries.

“Quando a gente pensa no longo prazo, a gente, sim, se vê oferecendo todos os produtos possíveis, seja diretamente ou via possíveis parcerias”, diz Vargas.

No mercado doméstico, a companhia tem licença de Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM), e portanto deve se consolidar também como corretora de investimentos.

No lado internacional, a empresa deve ampliar o portfólio para USITs, além de outros ativos domiciliados na Europa e na Ásia — lançamentos que ocorrerão “potencialmente no ano que vem”. O aumento do leque de produtos internacionais foi impulsionado pela obtenção de uma licença de broker-dealer nos Estados Unidos.

Um terço do roadmap da Nomad já é inteligência artificial

Se antes o foco eram licenças regulatórias, hoje a pauta interna da Nomad é dominada por IA. A empresa contratou um diretor de inteligência artificial e, a cada mês, torna os investimentos em IA mais relevantes — inclusive nos demonstrativos financeiros.

“A gente já tem uma linha no orçamento que é token, e mês passado a gente gastou centenas de milhares em token. Já é uma linha muito relevante dentro do nosso orçamento.”

Segundo Vargas, um terço do planejamento de produto da companhia hoje está dedicado a plataformas de IA, sejam produtos voltados ao cliente final, sejam estruturas internas de suporte aos times.

A iniciativa mais emblemática, segundo o CEO, é o que ele chama de agente de investimento — hoje usado pelo time de consultoria da Nomad Wealth para embasar decisões de portfólio:

“Acho que é meio clichê, mas acho que é a parte do agente de investimento. […] A gente por vezes fala que é um agente, mas, na verdade, é um grupo de agentes que criam um ecossistema.”

Sala VIP, seguro em dólar e a aposta na “reputação de longo prazo”

A companhia completou, há algumas semanas, um ano de operação do serviço de consultoria patrimonial sem cobrança de taxa, o Nomad Wealth.

Os clientes que podem acessar esse serviço são os que possuem a partir de US$ 25 mil investidos.

Esse crescimento tem sido relevante para o ganho da escala da empresa, segundo a gestão, visto que é um cliente que “aporta com mais frequência e em valores mais altos que a média”.

As estratégias de marketing relativamente ousadas também devem seguir. Da propaganda com Will Smith à sala VIP no Aeroporto de Guarulhos, a Nomad encara as iniciativas como necessárias para consolidar a empresa como um grande player no mercado nacional.

“A gente sempre menciona ela [Sala VIP] como um claro projeto que vai para muito além da viagem internacional. Quando a gente decidiu fazê-la, o grande objetivo era construir uma reputação, era para que as pessoas pudessem olhar para a empresa e pensarem que podem confiar nela e que existe de fato uma solidez por trás”, conta o CEO da Nomad.

A mesma lógica vale para o seguro de vida em dólar lançado pela Nomad — o primeiro do tipo no mercado brasileiro, segundo Vargas —, que funciona como porta de entrada para uns clientes e complemento de portfólio para outros, reforçando a retenção de longo prazo.

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