Durante boa parte do século 20, o Sidecar figurou entre os coquetéis mais pedidos do mundo. Presença constante nos bares de Paris, Londres e Nova York, o clássico à base de conhaque, licor de laranja e limão atravessou décadas como símbolo de elegância. Depois de perder espaço no fim do século passado, voltou aos holofotes impulsionado pela redescoberta da coquetelaria clássica e pelo interesse crescente em receitas históricas que resistem ao teste do tempo.
Nesta edição da série Drink da Semana, quem ensina a preparar o coquetel é o bartender carioca Michell Agues, vencedor do World Class Brasil 2026 – considerado a principal competição de coquetelaria do país. Após três participações anteriores, incluindo dois vice-campeonatos, Agues conquistou o título este ano e garantiu vaga na final mundial do torneio, que acontece em setembro, na Escócia.
A disputa entre Londres e Paris
Como acontece com muitos clássicos da coquetelaria, a origem do Sidecar permanece cercada de controvérsias.
A versão mais aceita atribui sua criação ao bartender irlandês Malachy “Pat” McGarry, do lendário Buck’s Club, em Londres, por volta de 1921. Veterano da Primeira Guerra Mundial, McGarry costumava buscar inspiração nas experiências do conflito para batizar seus coquetéis. O nome Sidecar seria uma referência aos compartimentos laterais das motocicletas militares, usados para transportar oficiais.
A teoria ganhou força quando a primeira receita impressa do drink apareceu no livro Cocktails: How To Mix Them, de Robert Vermeire, publicado em 1922. No texto, o autor afirma que o coquetel foi introduzido em Londres por McGarry, então um dos bartenders mais celebrados da cidade.
Mas Paris também reivindica a autoria. Harry MacElhone, proprietário do histórico Harry’s New York Bar, publicou uma receita do Sidecar no mesmo ano e, em edições posteriores de seu livro, passou a reivindicar a criação para si. Como MacElhone havia trabalhado ao lado de McGarry poucos anos antes, muitos historiadores acreditam que o bartender apenas ajudou a popularizar o coquetel na capital francesa.
Provavelmente nunca saberemos quem preparou o primeiro Sidecar. O que se sabe é que ele rapidamente se espalhou pelos bares europeus e se tornou um símbolo da sofisticação da década de 1920.
A fórmula original misturava partes iguais de cognac, licor de laranja e limão. Com o tempo, a maioria dos bartenders passou a privilegiar o destilado, criando a proporção mais conhecida atualmente: duas partes de cognac para uma de licor e uma de limão.
Durante boa parte do século 20, o Sidecar perdeu espaço para coquetéis mais doces ou mais simples de executar. Nos anos 1990, chegou perto do esquecimento e sobreviveu apenas nos balcões mais especializados.
Seu retorno começou nas últimas duas décadas, impulsionado pelo renascimento da coquetelaria clássica e pelo interesse renovado pelo conhaque entre consumidores mais jovens.
Como fazer um Sidecar perfeito
Nesta semana, quem ensina a preparar o drink é Michell Agues, vencedor do World Class Brasil 2026 – a principal competição de coquetelaria do país e etapa nacional da chamada “Copa do Mundo dos bartenders”. Entre os cinco coquetéis apresentados aos jurados na prova decisiva estava justamente o Sidecar.
Além de comandar a escola de coquetelaria Bar Skull, Michell agora se prepara para inaugurar, ainda neste semestre, o bar Jovelina, na boêmia Lapa, no Rio de Janeiro
Para levar a experiência do balcão para a sua casa, Michell traz a seguir três receitas: a clássica e duas adaptações exclusivas, uma mais escocesa e outra com muita brasilidade.
1. O Sidecar clássico
Ingredientes
- 60 ml de Cognac
- 25 ml de suco de limão fresco
- 25 ml de Triple Sec
Modo de preparo: Adicione todos os ingredientes em uma coqueteleira com gelo. Bata vigorosamente até gelar, e depois coe para uma taça previamente resfriada. Finalize com uma casca de laranja.
2. O Sidecar com uísque
Na final do World Class Brasil 2026, Michell apresentou uma releitura do clássico usando uísque escocês. “Fica muito interessante, é um coquetel vivo, potente e persistente. Com sabor cítrico, amadeirado e seco”, define o bartender.
Segundo Michell, diferente do clássico com conhaque, “a versão com JW Black Label ganha mais presença e fica menos doce”.
Ingredientes
- 60 ml de Johnnie Walker Black Label
- 15 ml de Triple Sec
- 20 ml de suco de limão-siciliano
Modo de preparo: Bata os ingredientes na coqueteleira com gelo, coe para a taça e finalize com um twist de limão-siciliano.
3. Um Sidecar bem brasileiro
Para quem gosta de explorar sabores brasileiros, o bartender sugere uma versão ainda mais autoral. “O pequi traz notas que lembram frutas tropicais e um lado amanteigado que conversa muito bem com o whisky. Já o puxuri acrescenta uma camada de especiarias secas. A solução salina ajuda a equilibrar tudo e realça a percepção de doçura do coquetel”, explica.
Ingredientes
- 60 ml de Johnnie Walker Black Label
- 15 ml de licor de creme de pequi
- 20 ml de suco de limão-siciliano
- 1 gota de solução salina a 20% (mistura de 80 ml de água com 20 g de sal)
- Raspas de puxuri
Modo de preparo: Adicione todos os ingredientes na coqueteleira com gelo, bata vigorosamente e coe para uma taça gelada. Finalize com as raspas de puxuri.