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O Chef Paraense Que Levou os Sabores do Tapajós da ONU à Mesa do Rei Charles

De Santarém, Saulo Jennings levou a culinária local para o mundo, transformou a vida das comunidades ribeirinhas e se consolidou como embaixador amazônico com seus restaurantes

6 min

Cinco mesas, um fogão de duas bocas, energia elétrica capenga – que não garantia força suficiente para ligar o liquidificador sem afetar a geladeira – e o Rio Tapajós de fundo. Tudo isso nas mãos de um homem caprichoso, que enfeitava sua casa com flores locais e um jogo americano de talo de açaí enquanto esperava seus primeiros clientes. Era a noite de estreia ao público do seu restaurante, a primeira vez que receberia alguém que não fosse amigo ou família para provar a sua comida. No fim, quando achou que ninguém viria, recebeu o dobro do esperado.

A memória dessa noite de julho de 2009 é vívida na cabeça do paraense Saulo Jennings. “Os clientes esperaram três horas para comer, porque eu estava sozinho, nem sabia o que era mise en place – aprendi a cozinhar com meu pai, que era autodidata. Mas o restaurante estourou desde então, e eu me profissionalizei”, revela o chef com a voz embargada, ao recordar da inauguração na véspera de comemorar 15 anos da Casa do Saulo.

A dimensão do que aconteceu desde então é até difícil de mensurar. Saulo virou expoente da cozinha tapajônica (termo cunhado por ele) e tem criado um império – dentro e fora do Brasil. Onde outrora atendia 20 pessoas em Santarém, hoje acomoda 360 de uma vez. Isso sem contar as unidades que vieram depois: duas em Belém, outra no Museu do Amanhã, no Rio, e a caçula, inaugurada na Vila Olímpia, em São Paulo, em 2024. Além do próprio açougue de peixes de manejo sustentável, duas pousadas e dois barcos-hotéis em Alter, e uma empresa de eventos que organiza o réveillon no “Caribe da Amazônia”.

Agência LourA unidade da Casa do Saulo em São Paulo

Entre seus feitos no exterior, recebeu o título de embaixador do Turismo Mundial pela ONU – o primeiro chef do mundo a receber a honraria. Assinou o menu do evento da coroação do Rei Charles III, em Londres, e o jantar de lançamento da COP 28, em Dubai. Entre os líderes mundiais que já provaram a comida de Saulo, estão o francês Emmanuel Macron e o chinês Xi Jinping.

E, este ano, o paraense é um dos nomes à frente da organização gastronômica da COP30, em Belém. Ele é o chef oficial da Cúpula dos Líderes da COP30, assinando e executando o menu de café, almoço, lanches e jantar para as 1.400 pessoas envolvidas no evento.

Filho de eletricista e costureira, Saulo nasceu e cresceu às margens do Tapajós. Viu o pai conquistar tantas pessoas com suas mesas fartas que quis aprender o feitiço. “Foi ótimo para atrair as namoradinhas quando adolescente”, ri. No entanto, a princípio, a cozinha era só hobby. A vontade de ganhar dinheiro o levou a trabalhar por mais de uma década com multinacionais na área de vendas, até que uma demissão súbita o fez se mudar para uma casa no meio do mato e ficar dois anos recluso. “Não foi um sabático, porque isso é para rico. Eu só estava desempregado mesmo.”

Victor AlvarengaA piracaia do restaurante, servida com banana-da- terra, arroz de chicória, vinagrete de feijão de Santarém, farofa e farinha de piracuí

Ali, no cenário bucólico da Praia do Carapanari, ele passou a dar aula de kitesurf. “No final, cozinhava para os alunos, e percebi que eles gostavam mais da comida do que da aula de kite. Foram eles que me incentivaram a abrir um restaurante”, conta. Desde então, a Casa do Saulo exalta as especificidades de técnicas e ingredientes diferentes da sua terra natal em comparação com a culinária paraense. “No Tapajós, um dos nossos preparos mais icônicos é a Piracaia: o peixe é feito na brasa. Em Belém, eles só fritam o peixe, por exemplo.”

Um dos seus pratos mais famosos é o que dá nome ao restaurante: um pirarucu grelhado, com molho de castanha-do-pará, banana-da-terra e camarão-rosa, e arroz de chicória. Outros sucessos de público, na casa paulistana: parmegiana de peixe com queijo do Marajó, e carbonara com cubos de bacon de pirarucu.

Mas o maior orgulho de Saulo não fica na cozinha. Ele se considera um ativista da comunidade do Rio Tapajós, que abrange 5% do território nacional e abriga cerca de 1 milhão de pessoas. “O trade do turismo diz que tem um período antes e outro pós-Saulo, que realmente valorizou a região”, ele conta com timidez, sem querer se gabar. “Muita gente mudou de vida com esse trabalho. O valor de um prato alimenta tantas pessoas.”

Victor AlvarengaManejo do pirarucu nas comunidades do Tapajós

Semanalmente, mais de 400 famílias de comunidades ribeirinhas fornecem insumos, como pirarucu, feijão de Santarém, jambu, cupuaçu, taperebá e tucupi para seus restaurantes. Tudo é fruto de uma relação próxima do chef com os produtores, apoiado por projetos sociais (como o Tapajós Vivo) e uma operação de logística com 100% de rastreabilidade.

Até o combate contra o garimpo está na agenda, apesar das ameaças que já recebeu. “Preciso ficar mais quieto e agir pelos bastidores, em nome das associações comunitárias. É uma luta árdua, diária, de muita coragem.”

Sobre o futuro, Saulo Jennings quer continuar a espalhar a palavra do Tapajós pelo mundo. A próxima parada deve ser Brasília, onde ele almeja que “toda liderança mundial prove uma comida original amazônica”. “Quero continuar fazendo pela minha família, pelo meu povo”, garante. E sempre com um lema em mente, que chama de inteligência do ser humano da Amazônia: “Quando você cuida da natureza, ela te dá tudo de que você precisa. Caso contrário, ela tira tudo de que você necessita.”

Sabores do Tapajós

  • Piracaia: Costume de assar o peixe na brasa, com os comensais ao redor da fogueira.
  • Peixe: Do pirarucu ao filhote, tambaqui, surubim, aquele que estiver mais fresco.
  • Feijão-manteiguinha: Grão típico de Santarém, menor e mais delicado, usado desde saladas a purês.
  • Aviú: Microcamarão encontrado nas águas rasas do Rio Tapajós.
  • Tucupi: Ouro do Norte, é o caldo extraído e fermentado da mandioca-brava, essencial para pratos como o tacacá.

Matéria originalmente publicada na revista da Forbes Brasil

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