A próxima fase da BYD no Brasil não depende apenas do carro elétrico. Ela passa pelo etanol. Depois de ganhar espaço com modelos 100% elétricos e híbridos plug-in, a marca chinesa começa a dar um passo decisivo para disputar uma fatia ainda maior do mercado nacional: adaptar sua tecnologia de eletrificação à realidade brasileira dos combustíveis flex. O movimento aparece no Novo BYD Song Pro Híbrido Flex Fuel, SUV que agora pode ser abastecido com gasolina ou etanol.
A escolha não é apenas técnica. É estratégica. O motor híbrido flex aumenta a autonomia, amplia a liberdade de escolha do consumidor no posto, conversa com a infraestrutura já existente no país e se encaixa em uma política industrial que favorece veículos menos poluentes. É o caso do Mover, programa do governo federal voltado à descarbonização, ao desenvolvimento tecnológico e à competitividade global da indústria automotiva brasileira.
Lançamento em 2024, o Mover prevê incentivos fiscais para empresas que invistam em descarbonizaçã. O pacote prevê R$ 3,5 bilhões em créditos financeiros em 2024, R$ 3,8 bilhões em 2025, R$ 3,9 bilhões em 2026, R$ 4 bilhões em 2027 e R$ 4,1 bilhões em 2028. Ao todo, serão mais de R$ 19 bilhões em créditos concedidos.
Para a BYD, que já tem 26% do mercado brasileiro de híbridos, o timing é relevante. Segundo dados da Fenabrave de janeiro a julho, foram emplacados no Brasil pouco mais de 187 mil carros híbridos, contra 100.518 no mesmo período de 2025. A alta é de 86%. A conta inclui diferentes tipos de tecnologia híbrida, mas mostra que a transição energética no país não está restrita ao carro elétrico puro.
A nova aposta da BYD
O Novo Song Pro chega em um momento em que o híbrido flex passou a ocupar papel central na indústria brasileira. A Toyota abriu esse caminho com o Corolla, primeiro modelo fabricado no Brasil a oferecer tecnologia híbrida flex, lançado em 2019. O sedã virou referência e ajudou a popularizar a tecnologia no país.
Depois vieram novos movimentos. A BMW anunciou, no fim de 2024, a produção do X5 xDrive50e em Araquari, em Santa Catarina, tornando o SUV o primeiro híbrido plug-in fabricado no Brasil e na América Latina. A GWM também avançou com a linha Haval H6 2027 flex, apresentada como a primeira família de veículos híbridos plug-in flex fabricada no Brasil.
A BYD entra nessa disputa com um produto de volume. Lançado originalmente em julho de 2024, o Song Pro já soma mais de 53 mil unidades emplacadas e se tornou o campeão de vendas da família Song, que lidera o segmento de SUVs médios desde dezembro passado. Agora, o modelo passa a ser Híbrido Flex Fuel.
A apresentação aconteceu na semana passada no interior paulista, região que concentra a maior produção de etanol do Brasil, ao lado do museu da Fazenda Engenho Central, dedicado à história da cana-de-açúcar. O cenário não foi escolhido por acaso. A mensagem é que a BYD quer unir eletrificação e biocombustível em uma solução feita para o Brasil.
“O BYD Song Pro Flex é resultado dos esforços de engenheiros brasileiros, chineses e até alemães, que somaram suas capacidades para entregar o SUV com o menor consumo energético em sua categoria e ainda oferece ao cliente a maior liberdade possível na hora de escolher o combustível”, diz Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD do Brasil.
O que muda no motor
A principal mudança está debaixo do capô. O Song Pro Híbrido Flex Fuel usa o novo sistema DM-i 5.0, com motor 1.5 de ciclo Atkinson. A eficiência térmica passou para 46,06%, contra 43,04% na geração anterior, a DM-i 4.0. O número fica acima da média de motores convencionais de ciclo Otto, entre 25% e 30%.
O motor a combustão entrega 72 kW de potência e 126 Nm de torque. No conjunto, ele atua principalmente como gerador de energia para a bateria Blade ou como apoio ao motor elétrico em momentos de carga extrema. A proposta é manter a tração elétrica como protagonista e usar o motor flex para ampliar eficiência e autonomia.
O resultado aparece nos dados de consumo energético. Segundo a tabela do Inmetro o Novo BYD Song Pro Flex registra 0,53 MJ/km na versão GL e 0,55 MJ/km na versão GS. A nova grade ativa, com aletas que abrem e fecham automaticamente para otimizar a operação do motor, também contribui para esse rendimento.
Mais autonomia com gasolina ou etanol
Na prática, o sistema flex amplia o alcance do SUV. No padrão europeu NEDC, a versão GS chega a até 1.105 km de autonomia com gasolina, ante 1.100 km antes. Na versão GL, o salto foi maior: de 1.001 km para até 1.075 km.
Com etanol no tanque de 52 litros, os números também são relevantes: até 805 km na versão GS e 775 km na GL. A vantagem é combinar a menor emissão associada ao biocombustível com a autonomia de um sistema híbrido plug-in.
O alcance elétrico também aumentou nas medições do PBEV. Na versão GS, equipada com bateria Blade de 18,3 kWh, o Song Pro Flex pode rodar até 72 km em modo elétrico, 10 km a mais do que antes. Na GL, a bateria de 13,1 kWh permite até 57 km, ganho de 8 km.
O carregamento AC é de 6,6 kWh. O SUV também mantém a função V2L, que transforma a bateria em uma espécie de power bank para alimentar equipamentos externos, como uma mini geladeira, um modem de internet ou um computador.
Em desempenho, o Song Pro Flex entrega potência combinada de 218 cv na versão GL e 219 cv na GS. O torque combinado é de 300 Nm. A velocidade máxima subiu 10 km/h e chega a 180 km/h. A aceleração de 0 a 100 km/h é feita em 8,8 segundos na GL e em 8,6 segundos na GS.
Mais conteúdo para ganhar mercado
O avanço técnico veio acompanhado de mudanças de design, cabine e equipamentos. A dianteira foi redesenhada com a identidade Dragon Face da família Dynasty, com novos faróis, grade e para-choque. Na lateral, as rodas foram redesenhadas e a coluna C cria efeito de teto flutuante. Na traseira, as linhas foram suavizadas, com destaque para a faixa prateada no para-choque.
Por dentro, o painel é novo, com acabamento em black piano e quadro de instrumentos integrado de 8,8 polegadas. Os bancos também são novos e têm ajustes elétricos para motorista e passageiro na versão GS. O seletor de marchas saiu do console central e foi para a coluna de direção, liberando espaço e melhorando a ergonomia. O revestimento é de couro ecológico cinza escuro.
O conforto também foi adaptado ao uso brasileiro. A versão GS traz vidros dianteiros laminados, para reforçar o silêncio a bordo. O entre-eixos é de 2,71 metros, e as suspensões, McPherson na dianteira e multilink na traseira, receberam novo acerto para as condições brasileiras.
Desde a versão GL, o modelo passa a trazer o pacote ADAS 2, com controle de cruzeiro adaptativo e inteligente, alerta de colisão frontal, alerta de mudança de faixa, assistência de permanência em faixa, frenagem automática de emergência, reconhecimento de placas de trânsito, assistente de farol alto automático e controle inteligente de limite de velocidade.
A versão GS adiciona alerta de colisão traseiro, alerta de tráfego cruzado traseiro, frenagem de emergência em tráfego cruzado traseiro, aviso de abertura de porta e detecção de ponto cego. Ambas têm seis airbags.
O Novo BYD Song Pro Híbrido Flex está disponível nas concessionárias por R$ 199.990 na versão GS e R$ 176.990 na GL. A garantia é de seis anos ou 200 mil km para o veículo e oito anos ou 200 mil km para a bateria Blade.
Camaçari entra na estratégia
O motor híbrido flex também ganha importância dentro do plano industrial da BYD no Brasil. A fábrica de Camaçari, na Bahia, já monta o Dolphin Mini, 100% elétrico, o King, híbrido plug-in, e o Song Pro, híbrido plug-in. Segundo Baldy, a unidade vai passar a incorporar em breve processos de soldagem, pintura e estamparia, concentrando praticamente toda a montagem do veículo no Brasil.
Atualmente, a operação funciona em regime SKD, em que os carros chegam semidesmontados e passam pela etapa final de montagem no país. A mudança deve começar com uma fase experimental de produção e, até o fim de 2026, o complexo deve contar com estamparia, soldagem e pintura. Ao todo, serão 17 unidades operacionais.
A ambição é transformar Camaçari no principal polo automotivo da BYD nas Américas e na maior linha de montagem de carros do Brasil. Com 4,65 milhões de metros quadrados, o equivalente a 645 campos de futebol, o complexo é o maior da BYD fora da China. A capacidade inicial é de 150 mil veículos por ano, com possibilidade de chegar a 300 mil em uma segunda etapa. Quando o projeto estiver completo, a meta é alcançar até 600 mil unidades por ano.
Em nove meses de operação, a unidade chegou a 100 mil veículos montados. A fábrica tem 5,5 mil colaboradores diretos, recebeu investimento de R$ 5,5 bilhões e, em plena capacidade, deve contribuir para a criação de 20 mil empregos diretos e indiretos.
“O investimento compreende todo o complexo e a verticalização da cadeia produtiva”, afirma Baldy. “Os prédios já existentes serão destinados à fabricação de peças, partes e componentes, com o objetivo de ter cada vez mais conteúdo local.”
Flex como ponte para o topo
A estratégia da BYD não se limita ao Song Pro. O Atto 2, apresentado em junho, também reforça a aposta no híbrido flex, embora ainda não tenha chegado às lojas. O novo SUV usa configuração visual próxima à do Yuan Pro, seu equivalente 100% elétrico, e será oferecido nas versões GS e GL. A proposta é combinar tecnologia DM-i com motor flex, reunindo eletrificação, gasolina e etanol.
“Nossos times de engenharia no Brasil e na China trabalharam juntos para unir a nossa liderança global em eletrificação à vocação brasileira para os biocombustíveis”, diz Baldy. “
É nesse ponto que o híbrido flex se torna decisivo para a BYD. O carro elétrico ajudou a marca a construir imagem tecnológica. O híbrido plug-in ampliou alcance e conveniência. Agora, o flex adiciona uma camada brasileira à estratégia: etanol, incentivos, autonomia e produção local.